PRIMEIRA CARTA DE SÃO CLEMENTE AOS CORÍNTIOS
INTRODUÇÃO
A Igreja de Deus estabelecida transitoriamente em Roma à Igreja de Deus estabelecida transitoriamente em Corinto, aos eleitos santificados na vontade de Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo: que a graça e a paz vos sejam dadas em plenitude da parte de Deus todo-poderoso, por Jesus Cristo.
CAPÍTULO I
1 - Por causa das desgraças e calamidades que repentina e continuamente se abateram sobre nós, talvez estejamos a tratar tardiamente dos acontecimentos que se deram entre vós, meus caros, e daquele motim, não conveniente a eleitos de Deus, iniciado por algumas pessoas irrefletidas e
audaciosas, de uma forma sórdida e ímpia, surgido de tal ponto de loucura, que o vosso nome, dantes estimado, acatado e celebrado por todos, fosse seriamente denegrido.
2 - Ora, quem é que esteve entre vós e não elogiou vossa fé extraordinária e firme? Quem não admirou vossa piedade consciente e suave em Cristo? Quem não louvou a tradição da vossa hospitalidade generosa? Ou quem não vos felicitou por vossa doutrina perfeita e segura?
3 - Fazíeis tudo sem distinguir as pessoas e andáveis dentro dos preceitos de Deus, sujeitando-vos aos vossos guias e respeitando devidamente os vossos anciãos. Aos jovens, transmitíeis conceitos prudentes e honrosos; às mulheres, recomendáveis para que cumprissem todos os seus deveres com consciência irrepreensível, de forma santa e pura, amando convenientemente seus maridos; e ainda as ensináveis a administrar a vida doméstica dentro das normas de obediência e da mais absoluta discrição.
CAPÍTULO II
1 - Vós todos ainda possuíeis sentimentos de humildade, isentos de qualquer vaidade, mais dispostos a submeter-vos do que a submeter, dando com mais gosto do que esperando receber. Contentando-vos com o que Cristo vos dava como alimento e meditando sobre suas palavras, vós as guardáveis com tanto cuidado no coração mesmo enquanto tínheis sofrimentos pairando diante dos vossos olhos.
2 - Assim, uma paz profunda e abençoada comunicava-se a todos, e um desejo insaciável de praticar o bem, assim como a plena efusão do Espírito Santo, eram produzidos em todos.
3 - Repletos de uma santa vontade, em bom zelo, levantáveis as vossas mãos piedosamente para o Deus onipotente, suplicando-lhe sua misericórdia quando cometíeis involuntariamente alguma falta.
4 - Dia e noite, travavam-se entre vós uma luta em favor da total fraternidade, para conseguir, pela misericórdia e conscienciosidade, a salvação de todos os seus eleitos.
5 - Autênticos e incorruptos vós éreis, não possuíeis malícia uns para com os outros.
6 - Toda revolta e todo cisma vos causavam horror. Ficáveis entristecidos ao ver as faltas dos outros; o que os outros cometiam, tínheis como vossas próprias faltas.
7 - Não havia por que vos arrepender de qualquer omissão de bondade, já que estáveis dispostos a toda boa ação.
8 - Ornados por uma conduta virtuosa e honrosa, cumpríeis todas as vossas ações em seu temor. Os mandamentos e as justas normas do Senhor estavam escritos sobre as fibras dos vossos corações.
CAPÍTULO III
1 - Plena reputação e prosperidade vos foi concedida, cumprindo-se a palavra da Escritura: "O bem amado comeu e bebeu, engordou e encheu-se de comida, e tornou-se desobediente".
2 - Daí nasceram o ciúme e a inveja, a discórdia e a revolta, a perseguição e a desordem, a guerra e o cativeiro.
3 - Desta forma, os desonrados levantaram-se contra os honrados, os desrespeitados contra os respeitados, os insensatos contra os sensatos, os jovens contra os anciãos.
4 - Por isso, afastou-se para longe a justiça e a paz no exato momento em que cada um abandonou o temor de Deus e obscureceu o olhar em sua fé, não andando conforme o que prescreve os seus mandamentos, não se conduzindo da maneira digna de Cristo. Ao invés, cada qual anda segundo os desejos de seu coração perverso, admitindo em si um ciúme injusto e ímpio, ciúme este que gerou a morte para o mundo.
CAPÍTULO IV
1 - Porque assim está escrito: "E aconteceu, após alguns dias, que Caim oferecesse a Deus um sacrifício com os frutos da terra e também, por sua vez, Abel oferecesse das primícias dos rebanhos e de suas gorduras.
2 - E Deus olhou para Abel e seus dons, não reparando, porém, em Caim e seus sacrifícios.
3 - Então Caim se entristeceu muito e seu rosto se abateu.
4 - Então o Senhor falou a Caim: 'Por que te tornaste sombrio e por que teu rosto anda abatido? Acaso não pecaste? Ora, embora tua oferenda seja correta, tua escolha não o foi.
5 - Acalma-te, pois a oferenda voltará a ti e poderás dispor dela'.
6 - Então Caim falou a Abel, seu irmão: 'Vamos para a planície'. E ocorreu que, enquanto estavam na planície, Caim se levantou contra Abel, seu irmão, e o matou".
7 - Vide, irmãos: foram o ciúme e a inveja que produziram o fratricídio.
8 - Por causa do ciúme, nosso pai Jacó teve que fugir da presença de Esaú, seu irmão.
9 - O ciúme fez com que José fosse perseguido à morte e acabasse preso.
10 - Foi o ciúme que obrigou Moisés a fugir da presença do faraó, rei do Egito, na hora de ouvir um de seus compatriotas: quem é que te constituiu árbitro e juiz sobre nós? Não queres matar-me, da mesma forma como ontem mataste o egípcio?
11 - Por causa do ciúme, Aarão e Maria foram expulsos do acampamento.
12 - O ciúme conduziu Datã e Abirão vivos para o Mundo dos Mortos, por se revoltarem contra Moisés, servo de Deus.
13 - Por ciúme, Davi não apenas obteve inveja da parte dos estrangeiros, como também foi perseguido por Saul, rei de Israel.
CAPÍTULO V
1 - Agora, para colocarmos fim aos exemplos antigos, passemos aos atletas que nos tocam de perto; verifiquemos os nobres exemplos da nossa geração.
2 - Por ciúme e inveja foram perseguidos e lutaram até à morte as nossas colunas mais elevadas e retas.
3 - Fixemos nossos olhos sobre os valorosos apóstolos:
4 - Pedro, que por ciúme injusto não suportou apenas uma ou duas, mas numerosas provas e, depois de assim render testemunho, chegou ao merecido lugar da glória.
5 - Por ciúme e discórdia, Paulo ostentou o preço da paciência.
6 - Sete vezes acorrentado, exilado, apedrejado, missionário no Oriente e no Ocidente, recebeu a ilustre glória por sua fé.
7 - Ensinou a justiça no mundo todo e chegou até os confins do Ocidente, dando testemunho diante das autoridades.
Assim, deixou o mundo e foi buscar o lugar santo, ele, que se tornou o mais ilustre exemplo da paciência.
CAPÍTULO VI
1 - A esses homens de conduta santa, ajuntou-se grande multidão de eleitos que, por ciúme, suportaram muitos insultos e torturas, transformando-se no mais belo exemplo entre nós.
2 - Por ciúmes, mulheres foram perseguidas, como Danaídes e Dircês, e sofreram afrontas cruéis e sacrílegas, percorrendo a segura trajetória da fé e obtendo o nobre prêmio, elas, que
eram fracas de corpo.
3 - Foi o ciúme que separou esposas e maridos, afrontando a palavra de nosso pai Adão: "Ela é osso dos meus ossos e carne da minha carne".
4 - Ciúme e intriga destruíram grandes cidades e eliminaram nações poderosas.
CAPÍTULO VII
1 - Caríssimos, ao vos escrever tais coisas, não apenas vos levamos a refletir, mas também advertimos a nós mesmos, já que nos encontramos no mesmo campo de batalha, nos esperando a mesma luta.
2 - Abandonemos, assim, as opiniões vazias e tolas, voltando-nos para a gloriosa e santa regra da tradição.
3 - Vejamos o que é belo, agradável e aceito aos olhos daquele que nos criou.
4 - Fixemos a vista no sangue de Cristo e compreendamos o quanto é precioso aos olhos do Pai pois, derramando-o por nossa salvação, ofereceu-o ao mundo inteiro pela conversão.
5 - Percorramos todas as gerações e aprendamos que de geração em geração o Senhor deu possibilidade de conversão àqueles que a Ele quiseram retornar.
6 - Noé anunciou a conversão e os que a aceitaram se salvaram.
7 - Jonas anunciou a ruína aos ninivitas; os que fizeram penitência de seus pecados, por suas súplicas, reconciliaram-se com Deus e alcançaram a salvação, ainda que fossem estranhos a Deus.
CAPÍTULO VIII
1 - Sobre a conversão falaram os ministros da graça de Deus, sob inspiração do Espírito Santo.
2 - Sobre a conversão também falou o próprio Senhor de tudo, ao jurar: "Tão certo como vivo - diz o Senhor - não quero a morte do pecador, mas sua conversão". E acrescentou:
3 - "Convertei-vos de vosso erro, casa de Israel! Dize aos filhos do meu povo: 'ainda que os vossos pecados se amontoassem da terra até o céu, ainda que estes fossem mais vermelhos que a púrpura e mais negros que o saco, se vos voltardes para mim de todo coração e disserdes: 'Pai!', eu vos atenderei como se fosses um povo santo'".
4 - Em outra parte, ainda fala: "Lavai e purificai-vos. Afastai dos meus olhos as maldades de vossas almas. Deixai vossas maldades e aprendei a praticar o bem; procurai a justiça, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a viúva, e então vinde para colocarmos as coisas em ordem - diz o Senhor. E se os vossos pecados forem como a púrpura, os tornarei brancos como a neve; se forem escarlate como a lã, os farei alvos. Se vos dispuserdes a me escutar, comereis os bens desta terra; porém, se não quiserdes me ouvir, a espada vos devorará - assim fala a boca do Senhor".
5 - No desejo de levar a todos os seus amados a participarem da conversão, fortaleceu-vos por sua vontade todo-poderosa.
CAPÍTULO IX
1 - Por isso, obedeçamos a sua vontade excelsa e gloriosa. Supliquemos, prostrados, pela piedade e bondade. Recorramos à sua misericórdia. Abandonemos a vaidade, a discórdia e o ciúme que conduz à morte.
2 - Fixemos o olhar naqueles que serviram com perfeição a sua magnífica glória.
3 - Tomemos, por exemplo, Henoc, que, encontrado justo em sua submissão, foi arrebatado e não se encontrou indício de sua morte.
4 - Noé, reconhecido fiel, recebeu o encargo de anunciar o renascimento do mundo e o Senhor salvou, por ele, os seres que entraram em harmonia na sua arca.
CAPÍTULO X
1 - Abraão, proclamado "o amigo", se revelou fiel em sua submissão à palavra de Deus.
2 - Por obediência, ele saiu de sua terra, deixou seus parentes e a casa do pai, saindo de uma terra pequenina, parentes sem importância, uma casa modesta, para herdar as promessas de Deus. Pois é Ele quem lhe diz:
3 - "Deixa tua terra, teus parentes e a casa de teu pai, para te dirigires à terra que te mostrarei. Farei de ti um povo grande. Abençoar-te-ei e engrandecerei teu nome; serás abençoado. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti, todas as tribos da terra serão benditas".
4 - Outra vez, ao se separar de Lot, falou-lhe Deus: "Levanta teus olhos e mede o espaço existente entre ti, entre o norte e o sul, leste e mar: pois toda essa terra vos darei e à tua descendência para sempre.
5 - Farei tua descendência como o pó da terra: se alguém conseguir contar o pó da terra então saberá também contar a tua descendência".
6 - E ainda diz: "Conduziu Deus a Abraão para fora e lhe falou: 'Levanta os olhos para o céu e conta os astros, se é que consegues contá-los. Assim será a tua descendência'. Abraão acreditou em Deus e isso lhe foi imputado como justificação".
7 - Por causa da fé e da hospitalidade, foi-lhe dado um filho na velhice e, por obediência, ele o ofereceu como sacrifício a Deus sobre um dos montes que Ele lhe mostrou.
CAPÍTULO XI
1 - Por causa da hospitalidade e piedade, Lot salvou-se de
Sodoma, quando a terra em redor foi castigada com fogo e
enxofre. Desta forma, Deus deixou claro que não abandona
aqueles que esperam nele, mas que entrega os ímpios ao
castigo e ao suplício.
2 - Sua mulher acompanhava-o na saída, no entanto, não
compartilhava sua fé e crença, transformando-se num sinal
disso, a ponto de reduzir-se a mera estátua de sal até os dias
de hoje, para que todos, assim, possam se inteirar que Deus
pune os desconfiados e os de alma dupla para escárnio de
todas as gerações.
CAPÍTULO XII
1 - Por causa da fé e hospitalidade, Raabe, a prostituta, se
salvou.
2 - Pois quando Jesus, filho de Navé, mandou espiões para
Jericó, o rei daquela nação ficou sabendo que haviam
chegado homens para explorar a terra; então mandou
homens para os prenderem e, depois de presos, matarem-
nos.
3 - Raabe, a hospitaleira, recebeu-os e os ocultou sob a palha
do linho no andar superior.
4 - Quando os emissários do rei se apresentaram e lhe
falaram: "Aqui entraram os espiões que vieram reconhecer
nosso território. O rei manda que os entregueis", ela
respondeu-lhes: "De fato, os homens que procurais entraram
em minha casa, porém já se retiraram e continuam seu
caminho". E ela apontou-lhes em direção oposta.
5 - Então ela falou aos espiões: "Disto sei e me convenci: o
Senhor vos entregou esta terra porque o medo e pânico se
apossaram de seus habitantes. Quando a conquistardes,
salvai a mim e a casa de meu pai".
6 - Os espiões responderam: "Será como falaste! Quando nos
vires aproximar, reúnam-se todos os teus parentes sob o teto
da tua morada e todos serão salvos; porém, aqueles que
estiverem do lado de fora perecerão".
7 - Como outro sinal, propuseram-lhe ainda que
dependurasse algo vermelho na casa, tornando evidente que,
pelo sangue do Senhor, viria à redenção para todos aqueles
que cressem e esperassem em Deus.
8 - Vede, amados: nesta mulher não houve apenas fé, mas
também o dom da profecia.
CAPÍTULO XIII
1 - Portanto, tornemo-nos humildes, irmãos, deixando de lado
toda a ostentação, o orgulho, o excesso e a ira, e cumpramos
o que está escrito. Pois assim diz o Espírito Santo: "Não se
orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o forte em sua força,
nem o rico em sua riqueza, mas aquele que se gloriar, glorie
no Senhor, procurando-O e praticando o direito e a justiça".
Antes de mais nada, recordemos as palavras ditas por Jesus,
mestre da equidade e grandiosidade.
2 - Pois foi ele que disse isto: "Sede misericordiosos para
obterdes misericórdia. Perdoai para que sejais perdoados.
Assim como fizerdes, assim vos será feito. Da forma como
derdes, assim vos será dado. Do modo como julgardes,
assim sereis julgados. Como fizerdes o bem, assim vos será
feito. Com a medida que medirdes, também vos será medido
em troca".
3 - Com este mandamento e estes preceitos, fortaleçamo-
nos, para que possamos andar humildes e submissos às
suas santas palavras. Pois a sagrada palavra assim reza:
4 - "Para quem hei de olhar senão para o manso e pacífico e
para aquele que respeita os meus oráculos?".
CAPÍTULO XIV
1 - É justo e santo, irmãos, tornarmo-nos submissos a Deus
do que seguirmos aqueles que se deixam guiar pela
arrogância e orgulho, aos promotores do ciúme.
2 - Estaremos nos expondo não a um prejuízo qualquer, mas
a um grande perigo, se nos entregarmos aos caprichos dos
homens, que buscam a discórdia e a revolta para nos separar
da boa conduta.
3 - Sejamos bondosos uns para com os outros, seguindo a
misericórdia e doçura do nosso Criador.
4 - Pois assim está escrito: "Os mansos habitarão a terra, os
inocentes serão deixados sobre ela enquanto os pecadores
serão exterminados dela".
5 - E em outro ponto: "Vi o ímpio gabar-se orgulhoso como os
cedros do Líbano; passei e ele não mais existia; então
procurei seu lugar e não encontrei. Guarda a inocência e
observa a justiça pois se consagra a memória do homem que
guarda a paz".
CAPÍTULO XV
1 - Unamo-nos, pois, àqueles que mantêm a paz na
santidade e não aos que defendem a paz por pura hipocrisia.
2 - Pois é dito em algum lugar: "Este povo me honra com os
lábios, mas seu coração está longe de mim".
3 - E novamente: "Abençoavam com a boca, mas
amaldiçoavam com o coração".
4 - E novamente: "Amavam-no com os lábios, mas mentiam-
lhe com a língua; o coração não era sincero para com Ele,
nem se mantinham fiéis à sua aliança.
5 - Por isso, tornem-se mudos os lábios ímpios que proferem
maldades contra os justos". E ainda: "Que o Senhor
extermine todos os lábios ímpios, a língua arrogante e todos
os que dizem: 'Engrandecemos a nossa língua, em nossos
lábios estão o poder! Quem é o nosso Senhor?'.
6 - Por causa da miséria dos pobres e dos gemidos dos
desamparados, levantar-me-ei agora - diz o Senhor - e os
colocarei a salvo.
7 - Julgarei seu caso com isenção".
CAPÍTULO XVI
1 - Porque Cristo pertence aos humildes e não aos se elevam
acima da comunidade.
2 - O cetro da majestade de Deus, nosso Senhor Jesus
Cristo, não veio com ares de arrogância e orgulho, muito
embora assim pudesse ter feito, mas com humildade, como,
sobre ele, o Espírito Santo anunciou. Pois disse:
3 - "Senhor, quem deu crédito à nossa palavra? A quem se
revelou o braço do Senhor? Nós anunciamos na presença
Dele: Ele é como o escravo, como a raiz numa terra sedenta!
Não possui beleza, nem brilho. Nós o vimos: não tinha
beleza, nem aparência agradável. Ao invés, sua beleza era
desprezível e perdia para a beleza dos homens. Um homem
açoitado, trabalhado e acostumado a sofrer fraquezas;
menosprezado, afastou o rosto e não contou para nada.
4 - Ele carrega nossos pecados e sofre por nós. Vimos nele
um homem atormentado, açoitado e humilhado.
5 - Foi coberto de chagas por causa de nossos pecados;
tornou-se debilitado por causa de nossos crimes; o castigo
que nos educa para a paz caiu sobre ele e nós fomos
curados, graças às suas chagas.
6 - Todos, como ovelhas, andávamos desviados; o homem
havia se desviado de sua rota.
7 - O Senhor o entregou em resgate por nossos pecados e
ele não abriu a boca diante dos maus tratos. Como cordeiro,
foi conduzido ao matadouro e, como ovelha, na frente do
tosquiador permaneceu calado, sem abrir a boca. Na
humilhação foi levantada sua condenação.
8 - Quem pregava sua geração já que sua vida será tirada da
terra?
9 - Por causa das iniqüidades do meu povo, ele será levado à
morte.
10 - E Eu entregarei os ímpios como reféns de sua sepultura
e os ricos em troca da sua morte, pois não cometeu mal
algum, nem culpa foi encontrada em sua boca. Mas o Senhor
quer purificá-lo de suas feridas.
11 - Se oferecerdes um sacrifício por vosso pecado, vossa
alma verá descendência pela longa vida.
12 - O Senhor quer arrancar o tormento de sua alma,
mostrar-lhe a luz e formá-lo na consciência, justificando o
justo que bem serviu a muitos; ele próprio tomará sobre si os
pecados deles.
13 - Por isso terá multidões como herança e distribuirá os
troféus dos poderosos pelo fato de sua alma ser entregue à
morte e ele ter sido contado entre os ímpios.
14 - E ele próprio suportou os pecados de muitos e se
entregou pelos pecados deles".
15 - Ele próprio ainda diz: "Eu, porém, não sou mais que um
verme, não sou homem, mas último entre os homens e
escória do povo.
16 - Todos os que me viram, zombaram de mim, murmuraram
com os lábios e moveram a cabeça em sinal de negação.
Confiou no Senhor, que o livre; se o quiser bem, que o salve".
17 - Vede, amados, que exemplo nos foi dado! Se o Senhor
assim se humilhou, o que faremos nós que chegamos, por
Ele, ao jugo de sua graça?
CAPÍTULO XVII
1 - Tornemo-nos imitadores daqueles que em peles de
carneiros e ovelhas percorriam a terra, anunciando a chegada
de Cristo: pensemos em Elias e Eliseu, também em Ezequiel,
nos profetas e, além destes, naqueles que receberam
testemunho favorável.
2 - Abraão recebeu magnífico testemunho, sendo proclamado
'amigo de Deus'. Mesmo assim, contemplando a glória de
Deus, confessou em sua humildade: "Eu, por mim, sou terra e
cinza".
3 - Também sobre Jó se escreveu desta forma: "Jó, porém,
era justo e irrepreensível; verdadeiro, temente a Deus e
afastado de todo o mal".
4 - Apesar disso, ele próprio se acusa, dizendo: "Ninguém é
isento de impureza, mesmo que sua vida se resumisse a um
só dia".
5 - Moisés foi chamado de 'fiel servidor em toda a casa de
Deus' e através de seu ministério, Deus castigou o Egito com
pragas e sofrimentos. Contudo, mesmo sendo tão
magnificamente exaltado, não se excedeu em palavras
grandiloquentes, mas, ao revelar-lhe o oráculo da sarça, falou
apenas: "Quem sou eu para me enviares? Tenho a voz fraca
e dificuldade para falar".
6 - E novamente assim fala: "Não passo de vapor que sai da
panela quente".
CAPÍTULO XVIII
1 - O que dizer de Davi e seu testemunho? A ele, Deus falou:
"Descobri um homem segundo o meu coração: Davi, filho de
Jessé. Em eterna misericórdia eu o ungi".
2 - Mas também ele falou para Deus: "Tende piedade de mim,
ó Deus, segundo a tua grande piedade e, segundo a tua
grande misericórdia, apaga o meu pecado.
3 - Lava-me sempre mais de minha iniqüidade e purifica-me
do meu pecado, pois reconheço a minha injustiça e o meu
pecado está sempre diante de mim.
4 - Pequei somente contra ti e pratiquei o que é mau perante
os Vossos olhos; para que estejas justificado em tuas
palavras e venças, se te julgarem.
5 - Eis que fui concebido na iniqüidade e no pecado minha
mãe me carregou em seu seio.
6 - Eis que amaste a verdade e me revelaste os obscuros
mistérios da tua sabedoria.
7 - Hás de me aspergir com hissopo e serei purificado; hás de
me lavar e tornar-me-ei mais branco do que a neve.
8 - Hás de fazer-me ouvir o som da alegria e da festa e os
ossos humilhados se rejubilarão.
9 - Afasta o rosto de meus pecados e apaga todas as minhas
iniqüidades.
10 - Cria um coração puro em mim, ó Deus, e forma um
espírito firme em meu peito.
11 - Não me afastes de tua presença e não retires de mim teu
santo espírito.
12 - Restitui-me a alegria da tua salvação e confirma-me com
um espírito magnâmico.
13 - Ensinarei teu caminho aos pecadores e os ímpios hão de
converter-se para ti.
14 - Livra-me de ações sanguinárias, ó Deus, Deus de minha
salvação.
15 - Minha língua exaltará a tua justiça. Senhor, hás de me
abrir a boca e meus lábios proclamarão o teu louvor.
16 - Se tivesses desejado um sacrifício, te-lo-ia oferecido,
porém, não te agradas com holocaustos.
17 - Para Deus, sacrifício é o espírito arrependido. Deus não
desprezará um coração contrito e humilhado".
CAPÍTULO XIX
1 - A humildade e a modéstia de homens tão grandes e
santos foram aprovados pela sua obediência. Os que
receberam as palavras Dele em temor e verdade não só nos
tornaram melhores como também as gerações que nos
precederam.
2 - Assim, após participarmos de muitas grandes e gloriosas
ações, corramos para a meta de paz que nos foi proposta
desde o início. Fixemos o nosso olhar sobre o Pai e Criador
de todo o mundo e agarremo-nos aos seus magníficos e
excelsos dons de paz e benefícios.
3 - Olhemos para Ele em espírito e consideremos com os
olhos da alma sua generosa vontade. Reconheçamos o
quanto é indulgente para com toda a sua criação.
CAPÍTULO XX
1 - Os céus movem-se por Sua disposição e lhe submetem
na paz.
2 - O dia e a noite percorrem o caminho por Ele demarcado,
sem jamais se impedirem mutuamente.
3 - Sol, lua e demais astros giram conforme Sua
determinação, em harmonia e sem desvio algum pelas órbitas
prescritas a cada um deles.
4 - A terra, submissa à Sua vontade, fecunda nas estações
próprias e provém sustento aos homens, animais e todos os
seres vivos, sem se rebelar nem se afastar da ordem por Ele
desejada.
5 - As profundezas insondáveis dos abismos e os
subterrâneos inexplorados se mantêm conforme as Suas leis.
6 - O mar imenso, encerrado dentro da bacia que o contém,
não ultrapassa os limites a ele imposto mas, assim como lhe
foi ordenado, o obedece.
7 - Pois foi Ele quem disse: "Até aqui chegarás e tuas ondas
se quebrarão em ti mesmo".
8 - O oceano, intransponível aos homens, bem como os
mundos atrás dele, ordenam-se pelas mesmas leis do
Senhor.
9 - As estações da primavera, verão, outono e inverno se
sucedem umas às outras em paz.
10 - A força dos ventos cumpre, por sua vez, o serviço dele
sem se desfalecer; as fontes perenes, criadas para gozo e
saúde, oferecem os peitos - sem interrupção - para dar vida
aos homens. Até os animais mais pequeninos fazem suas
reuniões dentro da paz e harmonia.
11 - O grande Criador e Senhor de tudo ordenou todas essas
coisas para que existissem em paz e concórdia, já que deseja
o bem de todas as criaturas, mostrando-se generoso demais
em relação a nós que nos refugiamos em sua misericórdia
por nosso Senhor Jesus Cristo.
12 - A Ele glória e majestade pelos séculos dos séculos.
Amém.
CAPÍTULO XXI
1 - Amados, cuidai para que vossos benefícios tão
numerosos não se transformem em condenação para nós, o
que acontecerá se não formos dignos Dele e não realizarmos
em concórdia o que é bom e agradável a Seus olhos,
2 - pois está dito em alguma parte: "O Espírito do Senhor é
uma lanterna que penetra até o fundo do coração".
3 - Consideremos o quanto está próximo, de forma que nada
do que pensamos, nada do que calculamos permanece-Lhe
oculto.
4 - Assim, é justo que não nos afastemos da Sua vontade.
5 - Devemos preferir chocar homens tolos e insensatos,
exaltados e cheios da arrogância de seus discursos, do que a
Deus.
6 - Reverenciemos o Senhor Jesus, cujo sangue foi
derramado por nós. Respeitemos nossos chefes. Honremos
os anciãos. Eduquemos os jovens a temerem a Deus.
Guiemos nossas mulheres para o bem.
7 - Que elas manifestem o desejo da pureza, a pura intenção
na suavidade. Que, pelo silêncio, demonstrem a moderação
de sua linguagem. Que o amor não fique dependente das
inclinações, mas que seja praticado de modo santo e igual
entre todos aqueles que temem a Deus.
8 - Que nossos filhos participem da educação em Cristo,
aprendendo o quanto pode a humildade perante Deus, o
quanto o amor consegue perante Deus, o quanto o temor
Dele é bom e excelso, salvando a todos os que nele vivem
santamente em pura intenção.
9 - É Ele que investiga nossos pensamentos e desejos. É o
sopro Dele que está presente em nós e que pode ser retirado
por Ele quando quiser.
CAPÍTULO XXII
1 - A fé em Cristo garante todas essas coisas, pois é Ele
mesmo que assim nos convida, pelo Espírito Santo: "Filhos,
vinde e escutai-me: hei de ensinar-vos a temer a Deus.
2 - Quem é o homem que quer vida e aprecia ver dias bons?
3 - Guarda tua língua do mal e teus lábios da traição.
4 - Afasta-te do mal e faze o bem.
5 - Procura e persegue a paz.
6 - Os olhos do Senhor estão voltados para os justos e seus
ouvidos para as suas súplicas. Mas a face do Senhor se volta
contra os que praticam o mal, destruindo a memória deles
sobre a terra.
7 - O justo clama e o Senhor o atende, livrando-o de todas as
tribulações.
8 - Muitos são os flagelos do pecador, já a misericórdia cerca
os que esperam no Senhor.
CAPÍTULO XXIII
1 - O Pai todo-poderoso e misericordioso tem entranhas para
os que O temem e, assim, distribui de forma bondosa e
amorosa Suas graças àqueles que se aproximam Dele com o
coração simples.
2 - Não hesitemos por causa disso, nem se orgulhe nossa
alma por causa dos Seus dons ricos e magníficos.
3 - Que nunca se aplique a nós a passagem da Escritura que
diz: "Infelizes os que hesitam no coração e desconfiam na
alma; aqueles que dizem: 'Tais promessas já escutamos na
época de nossos pais e eis que envelhecemos e nada disso
aconteceu'.
4 - Ó insensatos, comparai-vos à uma árvore; reparai na
videira que, primeiro perde as folhas e então brota, a seguir
vêm a folha, então a flor e, depois disso, a uva verde é
seguida da uva madura". Considerai como, em pouco tempo,
o fruto da árvore se torna maduro.
5 - É bem assim que a vontade de Deus se cumpre, em ritmo
veloz e inesperado, como a própria Escritura nos atesta: "Virá
logo e não tardará. Subitamente o Senhor entrará no seu
santuário, o Santo a quem esperais".
CAPÍTULO XXIV
1 - Amados, observemos como o Senhor não cessa de dar-
nos provas de que, no futuro, a ressurreição se concretizará.
Deu-nos prova dela primeiramente ressuscitando Jesus
Cristo dos mortos.
2 - Amados, vejamos como se dá a ressurreição há seu
tempo.
3 - O dia e a noite nos manifestam a ressurreição: dorme a
noite, ressuscita o dia; o dia se retira, chega a noite.
4 - Exemplifiquemos com os frutos da terra: como e de que
modo faz-se a semeadura?
5 - O semeador sai e espalha, semente por semente, pela
terra lavrada, que caem secas e nuas sobre a terra e aí se
desfazem; desta decomposição, a grandiosa providência do
Senhor as ressuscita, de forma que, de uma, aumentam para
muitas e produzem fruto.
CAPÍTULO XXV
1 - Consideremos o sinal prodigioso que ocorre na região
oriental, isto é, nas terras próximas da Arábia.
2 - Aí existe um pássaro chamado fênix, único na espécie e
que vive quinhentos anos. Quando está para morrer, ergue
seu próprio sepulcro usando incenso, mirra e outras plantas
aromáticas e, ao completar seu tempo, aí se introduz e morre.
3 - De sua carne em decomposição nasce uma larva que se
alimenta da matéria putrefata do animal morto e cria asas;
quando se torna forte, levanta o sepulcro onde se encontram
os restos de seu ancestral e carrega-o, voando da terra da
Arábia até a cidade do Egito chamada Heliópolis.
4 - E, em plena luz do dia, aos olhos de todos, transporta e
depõe aqueles restos sobre o altar do sol; a seguir, retoma o
vôo de volta.
6 - Então os sacerdotes examinam os calendários e
percebem que ele chegou ao se completarem quinhentos
anos.
CAPÍTULO XXVI
1 - Devemos, então, considerar grandioso e estranho o fato
de o Criador operar a ressurreição de todos aqueles que lhe
serviram santamente na confiança de uma boa fé, se ele
ilustra até por um pássaro a grandeza de sua promessa?
2 - Lê-se em alguma parte: "Hás de me ressuscitar e eu te
louvarei". E: "Deitei-me e adormeci; levantei-me porque tu
estás comigo".
3 - E Jó adverte novamente: "Ressuscitarás minha carne que
suportou todo esse sofrimento".
CAPÍTULO XXVII
1 - Que nossas almas se apeguem por uma esperança assim
Àquele que é fiel em Suas promessas e justo em Seus juízos.
2 - Aquele que proibiu a mentira, tampouco haverá de mentir,
pois nada junto a Deus é impossível, exceto a mentira.
3 - Portanto, que se acenda novamente dentro de nós a fé
Nele e reconheçamos que todas as coisas estão próximas
Dele.
4 - Com apenas uma palavra de sua grandeza, estabeleceu
tudo e, com uma só palavra, pode destruir tudo.
5 - Quem diria a Ele: "O que fizeste?", e quem resistiria à
força do seu poder? Fará tudo quando e como quiser. Nada
das coisas que ordenou haverá de passar.
6 - Tudo está diante de Seus olhos, nada escapa de Sua
determinação.
7 - Os céus anunciam a glória de Deus e o firmamento
anuncia a obra de Suas mãos. O dia comunica a façanha ao
dia, a noite transmite seu conhecimento à noite. Não há
palavras nem discursos em que suas vozes não são ouvidas.
CAPÍTULO XXVIII
1 - Já que vê tudo e ouve tudo, temamos a Ele e
abandonemos os maus desejos das ações desonestas, para
nos pouparmos por Sua piedade dos futuros juízos.
2 - Para onde poderia algum de nós fugir de Sua mão forte?
Qual mundo receberia alguém que desertou Dele? Pois, em
algum lugar, diz a Escritura:
3 - Para onde fugirei e onde me esconderei de Tua face? Se
subir ao céu, lá estás. Se me retiro para as extremidades da
terra, lá está a tua direita. Se me atiro nos abismos, lá está o
Teu Espírito.
4 - Portanto, para onde poderia alguém ir para escapar
Daquele que tudo envolve?.
CAPÍTULO XXIX
1 - Logo, aproximemo-nos Dele com alma santa, levantando
mãos puras e imaculadas para Ele, amando nosso Pai
bondoso e misericordioso, que nos admitiu como herdeiros.
2 - Porque assim está escrito: "Quando o Altíssimo distribuiu
a herança aos povos, na hora de disseminar os filhos de
Adão, definiu territórios para os povos conforme a multidão
dos anjos de Deus. Tornou-se herança do Senhor o povo de
Jacó e sua partilha foi Israel".
3 - E em outra parte se diz: "Eis que o Senhor toma para si
um povo no meio dos povos, assim como um homem toma as
primícias de sua eira, e deste povo há de proceder ao Santo
dos santos".
CAPÍTULO XXX
1 - Uma vez que formamos a porção santa, façamos tudo o
que leva à santificação. Fujamos da maledicência, abraços
impuros e impudicos, bebedeiras, modismos temporários,
cobiças abomináveis, adultério detestável e soberba
hedionda.
2 - Pois Deus, como se lê, resiste aos soberbos, porém,
concede graça aos humildes.
3 - Portanto, unamo-nos àqueles a quem Deus concede a
graça. Revistamo-nos de concórdia, sejamos continentes
humildes, mantendo-nos afastados de toda murmuração e
calúnia, justificando-nos mais pelas obras do que pelas
palavras.
4 - Pois assim se diz: "Quem muito fala, terá resposta. Qual
homem eloqüente imaginaria que isso fosse justo?"
5 - Bem-aventurado o homem, nascido de mulher, que vive
pouco. Não te tornes pródigo em palavras.
6 - Venha nosso louvor de Deus e não de nós. Deus odeia
aquele que louva a si próprio.
7 - O testemunho de nossas boas ações seja dado pelos
outros, como assim também aconteceu com nossos pais, que
foram justos.
8 - A arrogância, a presunção e a audácia se assentam sobre
aqueles que foram malditos por Deus. A discrição, a
humildade e a mansidão habitam junto daqueles que foram
abençoados por Deus.
CAPÍTULO XXXI
1 - Dessa forma, desejemos a bênção Dele e vejamos quais
são os caminhos que levam à bênção. Voltemos aos
acontecimentos desde o princípio.
2 - Por que nosso pai Abraão foi abençoado? Não seria
porque ele praticou a justiça e a verdade pela fé?
3 - Isaac, conhecendo o porvir e cheio de confiança, deixou-
se levar alegremente ao sacrifício.
4 - Jacó, humildemente, abandonou a terra por causa de seu
irmão e foi para junto de Labão, vivendo ali como seu servo,
recebendo os doze cetros de Israel.
CAPÍTULO XXXII
1 - Se alguém refletir com sinceridade sobre cada uma
dessas coisas, reconhecerá a magnificência dos dons de
Deus a Jacó.
2 - É dele que procederão todos os sacerdotes e levitas que
servirão ao altar de Deus. Dele [procede] o Senhor Jesus,
segundo a carne. Dele [procede], através de Judas, os reis,
príncipes e chefes. Por sua vez, os outros cetros de Jacó
também gozarão de não pouca honra, uma vez que Deus
anunciou: "Tua descendência será numerosa como as
estrelas do céu".
3 - Assim, todos atingiram à glória e à grandeza, não por si
mesmos, nem por suas obras ou pela justiça praticada, mas
por vontade Dele.
4 - Também igualmente entre nós, que fomos chamados por
Sua vontade em Cristo Jesus, já que não nos justificamos a
nós mesmos, nem por nossa sabedoria ou inteligência, ou
pela piedade ou obras que tenhamos praticado na santidade
do coração, mas através da fé, pela qual o Deus todo-
poderoso justificou a todos desde sempre: a Ele, a glória
pelos séculos dos séculos. Amém.
CAPÍTULO XXXIII
1 - Então, o que faremos, irmãos? Deveríamos renunciar à
prática do bem e desertar de Seu amor? Jamais permita o
Senhor que isso aconteça conosco. Ao contrário, devemos
nos esforçar para cumprir toda a obra boa com
disponibilidade entusiástica,
2 - já que o próprio Criador e Senhor de tudo se regozija de
suas obras.
3 - Foi Ele que firmou os céus com poder soberano e os
ornamentou com inesgotável sabedoria. Separou, também, a
terra da água que a cerca, assentando-a sobre a firmeza de
Sua própria vontade. Aos animais que povoam [a terra],
chamou-os à existência por sua ordem. Ele fez o mar e os
seres que nele habitam, encerrando-os aí com seu poder.
4 - Além disso tudo, com Suas mãos santas e puras, Ele
modelou a mais excelente, a maior de Suas obras: o homem.
E imprimiu nele os traços de Sua própria imagem,
5 - pois assim falou Deus: "Façamos o homem à nossa
imagem e semelhança. E Deus criou o homem; varão e
mulher os criou".
6 - E, enfim, quando terminou todas essas obras, achou-as
boas, abençoou-as e lhes disse: "Crescei e multiplicai-vos".
7 - Reparemos que todos os justos ornamentaram-se de boas
obras e também o próprio Senhor teve prazer em ornar-se
com boas obras.
8 - Já que temos tal exemplo, submetemo-nos sem demora à
sua vontade e, com todas as forças, pratiquemos as obras da
justiça.
CAPÍTULO XXXIV
1 - O bom trabalhador aceita, desinibidamente, o pão que
ganhou com seu trabalho. Já o preguiçoso e negligente foge
do olhar de seu senhor.
2 - Portanto, é necessário que estejamos dispostos a
executar as boas obras, já que elas derivam Dele.
3 - E foi assim que nos preveniu: "Eis o Senhor! Sua
recompensa está diante Dele, para retribuir a cada um
conforme suas obras".
4 - Assim nos exorta a confiarmos Nele de todo o coração,
para que não sejamos preguiçosos nem indolentes para
nenhuma boa obra.
5 - Nossa glória e segurança estão Nele! Submetamo-nos à
sua vontade! Pensemos no grande número de anjos que
estão prontos para servirem à Sua vontade.
6 - Assim diz a Escritura: "Milhares e milhares estavam diante
dele e centenas de milhares o serviam e clamavam: 'Santo,
Santo, Santo é o Senhor dos exércitos. Toda a criação está
cheia de sua glória'".
7 - Também nós, reunidos harmoniosamente com a mesma
finalidade, conscientes de nosso dever, clamamos a ele sem
nos cansarmos, numa só voz, para nos tornarmos
participantes das Suas grandiosas e magníficas promessas,
8 - pois é Ele quem diz: "Nenhum olho viu, nenhum ouvido
escutou e nenhum coração humano penetrou o que Deus de
grande preparou para os que Nele confiam."
CAPÍTULO XXXV
1 - Meus amados, como são ricos e admiráveis os presentes
de Deus!
2 - Vida em imortalidade, esplendor em justiça, verdade em
liberdade, fé em confiança, continência em santidade... e tudo
isso chegou ao nosso conhecimento.
3 - Então, o que não há de estar preparado para os que nele
aguardam? O Criador e Pai dos séculos, o próprio Santíssimo
conhece a grandeza e a beleza de seus dons.
4 - Lutemos, assim, para sermos contados no número dos
que Nele esperam, para nos tornarmos participantes de Seus
dons prometidos.
5 - Porém, como dar-se-á isso, amados? Fixando nossa
mente com confiança em Deus, procurando o que Lhe é
agradável e aceito, cumprindo o que convém à Sua santa
vontade, seguindo o caminho da verdade, afastando de nós
toda injustiça, maldade, ambição, dissensões, malignidade,
dolos, murmurações, difamações, recusas de Deus, soberba,
jactância, vaidade e falta de hospitalidade.
6 - Os praticantes de tais obras são réus do ódio de Deus,
[mas] não apenas os que as praticam, como também quem
as aprovam.
7 - Assim diz a Escritura: "Porém Deus disse ao pecador:
'Para que explicas os meus mandamentos e pronuncias sobre
a minha aliança?
8 - Detestaste a disciplina e abandonaste minhas palavras.
Quando vias um ladrão, corrias com ele; combináveis com os
adúlteros. Tua boca estava cheia de malícia e tua língua
provocava enganos. Tranqüilamente difamavas teu irmão e
entregavas ao escândalo o filho de tua mãe.
9 - Era o que fazias enquanto Eu me calava. Impiamente
supunhas que Sou semelhante a ti.
10 - Hei de confundir e obrigar-te a ver-te de frente.
11 - Compreendei, afinal, estas coisas, vós que esqueceis de
Deus, para que não vos arrebate como um leão e já não se
encontre quem vos liberte.
12 - Um sacrifício de louvor há de Me glorificar e aí está o
caminho no qual lhe mostrarei a salvação de Deus'".
CAPÍTULO XXXVI
1 - Amados irmãos, este é o caminho no qual encontramos a
nossa salvação: Jesus Cristo, o sumo-sacerdote de nossas
oferendas, o protetor e auxílio em nossa fraqueza.
2 - Por ele, olhamos para o alto dos céus. Através dele,
descobrimos a face imaculada e soberana de Deus. Através
dele, abriram-se os olhos do nosso coração. Através dele,
nossa inteligência obtusa e obscura se abre ao encontro da
luz. Através dele, o Senhor quis que saboreássemos do
conhecimento imortal. Sendo Ele o esplendor de Sua
grandeza, é tanto maior que os anjos, tendo recebido em
herança um nome superior ao deles.
3 - Pois assim está escrito: "Aquele que fez os ventos serem
seus anjos e as chamas do fogo serem seus servos".
4 - Assim falou o Senhor a respeito de seu Filho: "Meu Filho
és tu. Hoje Eu te gerei: pede-Me e Eu te darei as nações
como herança e os confins da terra como possessão".
5 - E outra vez Lhe diz: "Senta-te à minha direita, até que
ponha teus inimigos como escabelo de teus pés".
6 - Quem seriam estes inimigos? [Certamente,] os maus e os
que se opõem à Sua vontade.
CAPÍTULO XXXVII
1 - Irmãos, militemos com todo entusiasmo sob Suas ordens
indiscutíveis.
2 - Observemos nos soldados que servem sob as bandeiras
dos nossos imperadores, como cumprem as ordens com
disciplina, prontidão e submissão.
3 - Nem todos são comandantes, nem todos são chefes de
mil, nem chefes de cem, nem chefes de cinqüenta e assim
por diante, mas cada qual cumpre, em seu próprio posto, as
ordens emanadas pelo chefe supremo e demais autoridades.
4 - Os grandes nada podem sem os pequenos e os pequenos
nada podem sem os grandes. Em tudo existe alguma mistura
e aí está a vantagem.
5 - Exemplifiquemos com o nosso corpo: a cabeça sem os
pés nada é; nem, tampouco, os pés sem a cabeça. Até os
menores membros do corpo são úteis e necessários ao resto
do corpo. Todos convivem e atuam em submissão unânime
para salvarem todo o corpo.
CAPÍTULO XXXVIII
1 - Que se conserve, portanto, por inteiro o corpo que
formamos em Jesus Cristo e cada um se submeta a seu
próximo, conforme o carisma que lhe foi dado.
2 - O forte cuide do fraco e o fraco, por sua vez, respeite o
forte. O rico preste serviço ao pobre e o pobre, por sua vez,
renda graças a Deus, que lhe deu o suficiente para suprir sua
falta. O sábio manifeste sua sabedoria não por palavras, mas
por obras. O humilde não dê testemunho de si mesmo, mas
permita que o outro o dê a seu favor. O casto em sua carne
não se envaideça pois sabe que é Outro quem lhe dá a
continência.
3 - Afinal, irmãos, analisemos de que matéria fomos feitos,
como e quem fomos ao entrarmos no mundo, de que
sepulcro e escuridão nosso oleiro e criador nos tirou para nos
introduzir em Seu mundo, Ele que preparou para nós todos
os Seus dons antes mesmo que nascêssemos.
4 - Já que temos tudo isso Dele, devemos render-Lhe graças
por tudo. A Ele, a glória pelos séculos. Amém.
CAPÍTULO XXXIX
1 - Ignorantes e insensatos, loucos e incultos zombam e
escarnecem de nós, querendo dar importância às suas idéias.
2 - O quanto pode um mortal, qual a força de alguém que
nasceu da terra?
3 - Está escrito: "Não havia forma aos meus olhos, mas
percebi um hálito e uma voz que dizia:
4 - Como haveria de ser puro um mortal diante do Senhor ou
irrepreensível um homem por causa de suas obras? Se nem
Deus pode confiar em seus servos e se junto a seus anjos
encontrou algo de errado?'
5 - Nem o céu é puro diante Dele, como, então, poderiam ser
[puros] os hóspedes dos ranchos de barro, aos quais
pertencemos, sendo nós do mesmo barro? Esmagou-os
como vermes e entre a manhã e a noite deixaram de existir.
Pereceram porque não podem se ajudar por si próprios.
6 - Soprou sobre eles e morreram por não terem sabedoria.
7 - Grita! Talvez alguém te escute ou vejas algum dos santos
anjos. Realmente a cólera consome o tolo e o ciúme mata
aquele que se desviou.
8 - Tenho visto alguns tolos deitando raízes, mas logo são
consumidos como alimento.
9 - Que seus filhos sejam mantidos longe da salvação, que
sejam desprezados ao baterem à porta dos humildes e não
se encontre quem os liberte. Aquilo que para eles estava
preparado seja alimento dos justos, não encontrando eles
saídas para seus males".
CAPÍTULO XL
1 - Sendo óbvias todas essas coisas e tendo nós sondado as
profundezas do conhecimento de Deus, devemos fazer com
ordem tudo aquilo que o Senhor nos mandou cumprir nos
tempos determinados:
2 - Mandou-nos oferecer os sacrifícios e celebrar o culto, não
ao acaso ou desordenadamente, mas com tempos e horas
marcadas.
3 - Foi Ele quem fixou, por sua decisão altíssima, onde e
quais ministros deverão fazê-los, para que tudo fosse feito de
forma santa, sendo aceito por sua vontade.
4 - Aqueles que fazem suas oferendas dentro dos tempos
determinados, são-Lhe agradáveis e abençoados, já que
seguem as determinações do Senhor e não pecam.
5 - Pois ao sumo-sacerdote foram confiadas tarefas
particulares, aos sacerdotes um lugar próprio, aos levitas
certos serviços e o leigo liga-se pelas ordenações exclusivas
dos leigos.
CAPÍTULO XLI
1 - Irmãos, cada qual de nós agrade o Senhor em sua função,
vivendo em boa consciência, não transgredindo as regras de
seu ofício e exercendo-o com toda a dignidade.
2 - Irmãos, nem por toda parte são oferecidos sacrifícios
perpétuos ou votivos, de expiação e remissão, mas apenas
em Jerusalém. E lá mesmo não se oferece em qualquer
parte, mas apenas na frente do santuário, sobre o altar, e só
depois que o sumo-sacerdote e os seus auxiliares, acima
mencionados, examinarem atenciosamente a oferenda.
3 - Aqueles que praticam algo contra aquilo que agrada Sua
vontade recebem a morte como castigo.
4Irmãos, vede que, quanto maior o conhecimento com que
somos distinguidos, maior o perigo a que nos expomos.
CAPÍTULO XLII
1 - Os apóstolos receberam em nosso favor a boa-nova da
parte do Senhor Jesus Cristo. E Jesus Cristo foi enviado por
Deus.
2 - Portanto, Cristo vem de Deus e os apóstolos [vêm] de
Cristo. Esta dupla missão realizou-se em perfeita ordem por
vontade de Deus.
3 - Munidos de instruções e plenamente assegurados pela
ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, confiantes na
Palavra de Deus, saíram a evangelizar a próxima vinda do
Reino de Deus na plenitude do Espírito Santo.
4 - Assim, proclamando a palavra nos campos e nas cidades,
estabeleceram suas primícias, como bispos e diáconos, dos
futuros fiéis, após prová-los pelo Espírito.
5 - E não se trata de inovação... há séculos que as Escrituras
falam de bispos e diáconos, pois assim se lê em algum lugar:
"Quero estabelecer os bispos deles na justiça e os seus
diáconos na fé".
CAPÍTULO XLIII
1 - Por que estranhar que os apóstolos, a quem Cristo
confiou, da parte de Deus, tal obra, tenham instituído os
acima mencionados? Ora, até o bem-aventurado e servo fiel
em toda casa, Moisés, assinalou tudo o que lhe fora
ordenado nos santos livros. Seguiram-no os demais profetas,
juntando os seus testemunhos às leis por ele instituídas.
2 - No momento de irromper o ciúme a respeito do sacerdócio
e de se disputarem as tribos, isto é, qual delas deveria
ostentar esse título glorioso, ordenou ele aos doze chefes de
tribo que lhe trouxessem bastões com o nome de cada tribo
gravado. Tomando tais bastões, amarrou-os, assinalou-os
com os anéis dos chefes e os depositou sobre a mesa de
Deus na tenda do testemunho.
3 - Então fechou a tenda, selando as chaves da mesma forma
que os bastões.
4 - Disse-lhes, então: "Irmãos, a tribo cujo bastão brotar será
a escolhida por Deus para exercer o sacerdócio e ministrar
seu culto".
5 - Ao amanhecer, reuniu todo Israel, os seiscentos mil
homens, mostrou os selos aos chefes, abriu a tenda do
testemunho e retirou os bastões. E ocorreu que o bastão de
Aarão não só germinara como também produzira fruto.
8 - Então, o que lhes parece, irmãos? Acaso Moisés não
sabia, previamente, que era isso o que ocorreria? Sem dúvida
sabia-o. Mas, para que não irrompesse uma revolta em Israel,
agiu dessa maneira, para que fosse glorificado o nome do
verdadeiro e único Deus. A Ele, a glória pelos séculos dos
séculos. Amém.
CAPÍTULO XLIV
1 - Também os apóstolos sabiam, por Nosso Senhor Jesus
Cristo, que haveria contestações a respeito da dignidade
episcopal.
2 - Por tal motivo e como tivessem pleno conhecimento do
porvir, estabeleceram os acima mencionados e deram, além
disso, instruções no sentido de que, após a morte deles,
outros homens comprovados lhes sucedessem em seu
ministério.
3 - Os que assim foram instituídos por eles ou, mais tarde,
por outros eminentes homens com a aprovação de toda a
Igreja, servindo de modo irrepreensível ao rebanho de Cristo,
com humildade, pacífica e abnegadamente, recebendo o
testemunho favorável por longo tempo e da parte de todos,
não é justo, em nossa opinião, serem depostos de seus
ministérios.
4 - E não será pequena a nossa falta se depusermos do
episcopado aqueles que ofereceram, de maneira santa e
irrepreensível, os sacrifícios.
5 - Bem-aventurados os presbíteros que nos precederam na
caminhada e terminaram sua jornada carregados de frutos e
perfeição. Não têm a temer que alguém os remova do lugar
para eles preparado.
6 - Vemos que vós afastastes a alguns de boa índole de um
ministério que eles honraram de forma digna.
CAPÍTULO XLV
1 - Irmãos, cheios de zelo, disputai pelas coisas que levam à
salvação.
2 - Vós vos aprofundastes nas verdadeiras Escrituras
Sagradas, que nos vêm do Espírito Santo.
3 - Sabeis que elas não são injustas, nem contêm
falsificação. Lá não encontrareis que homens justos foram
depostos por homens santos.
4 - Ao contrário, os justos foram perseguidos por pecadores,
foram encarcerados por ímpios, foram apedrejados por
transgressores da lei, foram assassinados por homens cheios
de ciúmes abomináveis e criminosos.
5 - Tais sofrimentos eles suportam com glória.
6 - O que diríamos então, irmãos? Acaso Daniel foi lançado à
cova por homens tementes a Deus?
7 - E quanto a Ananias, Azarias e Misael: foram eles lançados
à fornalha ardente por homens que praticavam o culto
excelso e glorioso do Altíssimo? De modo algum! Então,
quem praticou tais coisas? Foram indivíduos odiosos, cheios
de maldade e que nutriam tal fúria que mandavam à tortura
todos aqueles que serviam a Deus com santa e irrepreensível
intenção, esquecendo-se que o Altíssimo é defensor e
escudo daqueles que servem a seu Santíssimo Nome com
consciência pura. A Ele, a glória pelos séculos dos séculos.
Amém.
8 - Os que perseveraram na paciência, receberam glória e
honra como herança, foram exaltados e inscritos no livro da
memória de Deus, por todos os séculos dos séculos. Amém.
CAPÍTULO XLVI
1 - Irmãos, temos que nos apegar a tais exemplos,
2 - pois está escrito: "Apegai-vos aos santos porque os que a
eles se apegam serão santificados".
3 - E, de novo, em outra parte, se diz: "Junto ao homem puro
serás puro. Junto ao eleito serás eleito. Junto ao perverso
serás perverso".
4 - Apeguemo-nos, pois, aos puros e justos porque são esses
os eleitos de Deus.
5 - Por que entre vós existem disputas, ódios, contendas,
cismas e guerras?
6 - Acaso não temos um só Deus, um só Cristo e um só
Espírito da graça derramado sobre nós e uma só vocação em
Cristo?
7 - Por que insistimos em separar e despedaçar os membros
de Cristo, nos revoltando contra o próprio corpo, chegando a
uma loucura tal que nos esquecemos que somos membros
uns dos outros? Lembrai-vos das palavras de Nosso Senhor
Jesus,
8 - porque foi Ele quem disse: "Ai daquele homem! Melhor
seria que não tivesse nascido do que escandalizar um dos
meus eleitos. Mais lhe valeria amarrar uma pedra em seu
pescoço e afundar no mar do que perverter um dos meus
eleitos".
9 - Vosso cisma perverteu a muitos, atirou muitos no
desânimo, colocou muitos na dúvida, entristeceu-nos a todos.
E vossa revolta se prolonga...
CAPÍTULO XLVII
1 - Tornai a ler a epístola do bem-aventurado apóstolo Paulo.
2 - O que vos escreveu primeiro, no início do evangelho?
3 - Na verdade, estava ele inspirado pelo Espírito quando vos
comunicou normas sobre si próprio, sobre Cefas e Apolo,
pois já então formáveis partidos.
4 - Mas o partidarismo daquele tempo importou num pecado
muito menor para vós já que vos agrupáveis em torno dos
apóstolos e de um homem aprovado por eles.
5 - Refleti, porém: quem são os que vos pervertem neste
momento e como enfraqueceram o renome da vossa
caridade tão celebrada por todos.
6 - Uma vergonha, meus caros, uma vergonha muito grande
e indigna de uma conduta em Cristo ouvir-se que a Igreja dos
coríntios, tão inabalável e antiga, se rebele contra os
presbíteros por causa de uma ou duas pessoas.
7 - E tal rumor não chegou apenas até nós, mas atingiu
também a outros que possuem as mesmas convicções que
nós, a ponto de se proferirem blasfêmias ao nome do Senhor
por causa da vossa insensatez, por armar perigo para vós
próprios.
CAPÍTULO XLVIII
1 - Arranquemos esse mal o mais rápido possível. Lancemo-
nos aos pés do Senhor e peçamos-lhe, entre lágrimas, que se
compadeça de nós, reconciliando-se conosco, trazendo-nos
de volta a uma prática santa e pura de nossa fraternidade.
2 - Porque é esta a porta da justiça aberta para a vida,
conforme está escrito: "Abri-me as portas da justiça: por elas
quero entrar e louvar o Senhor.
3 - É esta a porta do Senhor: por ela entrarão os justos".
4 - Entre as muitas portas abertas, a porta da justiça é a porta
de Cristo. Bem-aventurados todos aqueles que entram por
ela e guiam seus passos na santidade e justiça, cumprindo
todas as coisas impertubavelmente.
5 - Que alguém tenha fé, que seja capaz de expor o
conhecimento, que seja sábio em discernir os discursos, que
seja santo em suas ações.
6 - Quanto maior parecer, mais se deve ser humilde,
procurando o proveito de todos e não o próprio.
CAPÍTULO XLIX
1 - Quem possui a caridade em Cristo, cumpra os
mandamentos de Cristo.
2 - Quem poderia descrever o vínculo da caridade de Deus?
3 - Quem seria capaz de exprimir a magnificência de sua
beleza?
4 - É indescritível a altura a que nos leva o amor.
5 - O amor nos une a Deus, o amor cobre os pecados, o amor
suporta tudo, o amor é grandioso em tudo. Nada há de
mesquinho e soberbo na caridade. A caridade não conhece
cisma, a caridade não se revolta, a caridade realiza tudo com
harmonia, na caridade todos os eleitos de Deus atingiram a
perfeição. Sem caridade, não há nada que agrade a Deus.
6 - Na caridade o Senhor nos acolheu. Pela caridade que
teve conosco, Nosso Senhor Jesus Cristo deu Seu sangue
por nós, segundo a vontade de Deus; sua carne por nossa
carne, sua alma por nossas almas.
CAPÍTULO L
1 - Amigos, vede como a caridade é grande e admirável e
como não há como descrevê-la de forma perfeita.
2 - Quem seria capaz de chegar até ela a não ser aqueles a
quem Deus os torna dignos. Peçamos e supliquemos por Sua
misericórdia, para vivermos irrepreensíveis na caridade sem a
parcialidade humana.
3Desde Adão, passaram todas as gerações até o dia de hoje.
Mas os que foram perfeitos no amor segundo a graça de
Deus tomaram posse da terra dos santos e hão de
manifestar-se quando o Reino de Cristo estiver à vista.
4 - Pois está escrito: "Entrai nos aposentos por um instante,
até que passe minha ira e meu furor. Então me lembrarei do
dia favorável e hei de ressuscitar-vos de vossos túmulos".
5 - Amigos, somos felizes quando cumprimos os
mandamentos de Deus na harmonia da caridade, para que
nossos pecados sejam perdoados pela caridade.
6 - Porque a Escritura diz: "Bem-aventurados aqueles que
tiveram perdoadas suas iniqüidades e encobertos seus
pecados. Bem-aventurado o homem a quem Deus não
imputa pecado e em cuja boca não se encontra a fraude".
7 - Estas bem-aventuranças dizem respeito aos que foram
escolhidos por Deus, através de Nosso Senhor Jesus Cristo,
a quem se dê a glória pelos séculos dos séculos. Amém
CAPÍTULO LI
1 - Peçamos perdão de nossas quedas e faltas ocorridas pela
sugestão do inimigo. Mas também devem considerar nossa
comum esperança aqueles que se tornaram os líderes dessa
revolta e cisão.
2 - Pois os que vivem no temor e na caridade preferem ver-se
a si mesmos atormentados do que os seus irmãos. Preferem
ser censurados a ver censurada a concórdia que nos foi
transmitida por tão bela e santa tradição.
3 - Mais vale ao homem confessar publicamente suas faltas
do que endurecer o coração, da mesma forma como
endureceu o coração daqueles que se revoltaram contra
Moisés, servo de Deus, e que foram castigados mais tarde,
4 - pois desceram vivos para o inferno, onde a morte os
apascentará.
5 - O faraó, seu exército, todos os chefes do Egito, os carros
e os que neles estavam não foram lançados ao Mar Vermelho
por outro motivo. Aí pereceram porque endureceram seus
corações insensatos, após os sinais e milagres realizados por
Moisés, servo de Deus, no Egito.
CAPÍTULO LII
1 - Irmãos, o Senhor não necessita de absolutamente nada.
Não precisa de nada de ninguém, exceto que o confessem.
2 - Pois assim diz Davi, Seu eleito: "Hei de exaltar o Senhor e
isso Lhe agradará mais do que um novilho que possua chifres
e patas. Que O vejam os pobres e se rejubilem".
3 - E novamente: "Oferece a Deus um sacrifício de louvor.
Cumpre teus votos ao Altíssimo. 'Invoca-Me no dia da tua
tribulação: Eu te livrarei e me renderás glórias'.
4 - Porque, para Deus, sacrifício é o espírito humilhado."
CAPÍTULO LIII
1 - Caríssimos, conheceis - e como conheceis bem - as
Sagradas Escrituras: vos aprofundastes nos oráculos de
Deus. Escrevemos isto para simplesmente vos recordar das
coisas.
2 - Quando Moisés subiu a montanha e aí passou,
humildemente, quarenta dias e quarenta noites fazendo
jejum, Deus lhe falou: "Desce depressa porque teu povo
pecou. Aqueles que conduziste para fora da terra do Egito
pecaram e afastaram-se do caminho que prescreveste pois
fizeram para si ídolos de metal".
3 - E o Senhor ainda acrescentou: "'Eu já te disse e volto a
repetir: vi este povo e quão dura é sua cabeça. Deixa-me
exterminá-lo, apagarei seu nome sob os céus e farei de ti
uma nação grandiosa e admirável, muito mais numerosa do
que esta'.
4 - Mas Moisés respondeu-lhe: 'Senhor, não faças isso!
Perdoa o pecado deste povo ou tira de mim o livro dos vivos'".
5 - Ó grande caridade! Ó perfeição insuperável! O servo fala
com liberdade com o seu Senhor: exige perdão para o povo
ou implora que seja destruído junto com ele.
CAPÍTULO LIV
1 - Quem, dentre vós, for nobre, compassivo e cheio de
caridade,
2 - diga: "se é por minha causa que há revolta, discórdia e
cisma, eu me retiro, parto para onde quiserdes e faço o que
for pedido pela comunidade, desde que apenas o rebanho de
Cristo viva em paz com os presbíteros constituídos".
3 - Quem agir dessa maneira obterá grande glória em Cristo e
será recebido em toda a parte, "pois do Senhor é a terra e
sua plenitude".
4 - É isso o que fizeram e ainda fazem os que trilham, sem
remorsos, o caminho de Deus.
CAPÍTULO LV
1 - Porém, tomemos também exemplos dentre os gentios:
quando surge uma peste, muitos reis e príncipes se entregam
à morte por inspiração de algum oráculo, para salvar o
sangue de seus cidadãos. Muitos outros se retiram de suas
cidades, para que a revolta não se estenda.
2 - Conhecemos muitos dentre os nossos que se entregaram
à prisão para resgatarem outros. Muitos se entregaram à
escravidão para sustentar os demais com o dinheiro pago.
3 - Muitas mulheres, fortalecidas pela graça de Deus,
realizaram difíceis tarefas.
4 - A bem-aventurada Judite, durante o cerco da cidade,
pediu aos presbíteros a permissão para se ausentar do
acampamento dos estrangeiros.
5 - Expondo-se ao perigo, saiu por amor à pátria e ao povo
em cerco. E o Senhor entregou Holofernes na mão de uma
mulher.
6 - Perfeita na fé, Ester expôs a si mesma num perigo não
menor, para salvar da proximidade da morte as doze tribos de
Israel. Pelo jejum e humilhação, suplicou ao Senhor que tudo
vê, o Deus dos séculos. E este, vendo a humildade de sua
alma, salvou o povo em favor daquela que se expusera ao
perigo.
CAPÍTULO LVI
1 - Supliquemos também nós pelos que vivem no pecado,
para que recebam doçura e humildade, para não cederem a
nós, mas à vontade de Deus. Assim se tornará frutífera e
perfeita a lembrança misericordiosa que deles tivemos diante
de Deus e dos santos.
2 - Aceitemos a correção fraterna, a qual, amados, ninguém
deve julgar mal. A exortação que damos uns aos outros é boa
e muito útil, pois nos une à vontade de Deus.
3 - É isso que testemunha a santa Escritura: "Castigou e
tornou a me castigar o Senhor, mas não me entregou à
morte.
4 - A quem o Senhor ama, castiga e açoita como a seu filho."
5 - O texto continua: "Há de me castigar, como justo em
misericórdia, e há de me corrigir. E enquanto isso, que
nenhum óleo dos pecadores ungia a minha cabeça."
6 - E novamente diz: "Bem-aventurado o homem que o
Senhor corrigiu. Não recuses a repreensão do todo-poderoso,
pois Ele faz sofrer e novamente restabelece.
7 - Bateu e suas mãos curaram.
8 - Seis vezes arrancar-te-á as dificuldades; na sétima, o mal
não te atingirá.
9 - Na fome, preservar-te-á da morte. Na guerra, [preservar-
te-á] do fio da espada.
10 - Proteger-te-á do açoite da língua, não temerás males
vindouros.
11 - Rirás dos injustos e maus, e não temerás os animais
selvagens.
12 - Até os animais selvagens viverão em paz contigo.
13 - Verás que tua casa gozará de paz e não faltará comida
na tua tenda.
14 - Verás que tua descendência será grande e os teus filhos
como a erva miúda do campo.
15 - Descerás ao túmulo como o trigo amadurecido, colhido
no tempo certo, ou como feixe da eira, recolhido na hora
exata"
16 - Caríssimos, vede quão grande é a proteção para aqueles
que aceitam a correção do Senhor, pois Ele nos corrige como
bom Pai, para encontrarmos misericórdia por sua santa
correção.
CAPÍTULO LVII
1 - Portanto, vós que originastes a revolta, submetei-vos aos
presbíteros e deixai-vos corrigir até vos converterdes,
dobrando os joelhos de vossos corações.
2 - Aprendei a submeter-vos, depondo a arrogante e
orgulhosa jactância da vossa língua, pois é muito melhor para
vós encontrar-vos no rebanho de Cristo, como pequenos e
escolhidos, do que serdes superestimados, mas excluídos da
Sua esperança,
3 - pois é assim que se exprime a santíssima sabedoria: "Eis
que anunciar-vos-ei a palavra do meu Espírito. Dar-vos-ei a
conhecer o meu discurso.
4 - Já que chamei e não escutastes, me estendi e não destes
atenção, ao contrário, negligenciastes os meus conselhos e
fizestes pouco caso das minhas advertências, por isso
também rirei da vossa perda, zombarei na hora em que
chegar a tua ruína e quando o tumulto se abater sobre vós,
catástrofe repentina como uma tempestade, ou quando vos
visitar a tribulação e a angústia.
5 - Então me invocarás, porém, não vos escutarei. Pecadores
me procurarão, mas não me encontrarão, pois detestaram a
sabedoria e não estimaram, acima de tudo, o temor do
Senhor, não deram atenção aos meus conselhos, zombaram
das minhas advertências.
6 - Por isso, comerão os frutos dos seus erros e saciar-se-ão
da sua própria impiedade.
7 - Serão mortos em troca do mal que provocaram aos
humildes e o julgamento aniquilará os ímpios. Porém, aquele
que Me escuta, habitará sua tenda e, confiando na
esperança, viverá em paz sem temer qualquer mal."
CAPÍTULO LVIII
1 - Assim, obedeçamos a seu Nome, todo santo e glorioso.
Fujamos das ameaças que a sabedoria incute contra os
insubmissos, para que possamos fixar nossa tenda confiantes
no Nome santíssimo de Sua Majestade.
2 - Acatai ao nosso conselho e não vos arrependereis, pois
Deus é vivo, assim como vivo também são Jesus Cristo e o
Espírito Santo, e vivas também são a fé e a esperança dos
eleitos no sentido daqueles que praticam os mandamentos e
preceitos de Deus com humildade, mansidão perseverante e
sem hesitação, para serem relacionados e se enfileirarem no
número dos que serão salvos por Jesus Cristo, pelo qual
rendemos glória pelos séculos dos séculos. Amém.
CAPÍTULO LIX
1 - Se, porém, alguns não obedecerem ao que foi dito por
nós, saibam que se envolverão em pecado e perigo não
pequeno.
2 - Contudo, nós seremos inocentes deste pecado e
pediremos em súplica e oração constante para que o Criador
de tudo conserve intacto o número dos que foram contados
entre Seus escolhidos em todo o mundo, por seu Filho mui
amado, Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual nos chamou
das trevas para a luz, da ignorância para o conhecimento da
glória de seu nome.
3 - Ele nos ensinou a esperar em Teu Nome, princípio de
toda criatura. Tu que nos abriste os olhos do coração para Te
conhecermos, ao único Altíssimo nas alturas, Santo que
repousa entre os santos:
Tu que rebaixas o orgulho dos soberbos, que desfazes as
estratégias das nações, que exaltas os humildes e humilhas
os que se exaltam, que distribuis a riqueza e a pobreza, que
fazes morrer e levas à vida, que és o único benfeitor dos
espíritos e Deus de toda carne, que vigias os abismos e
controlas as obras dos homens, que és socorro nos perigos e
Salvador no desespero, Criador e Bispo de todo espírito, tu
que multiplicas as raças sobre a terra e, dentre todas,
escolhes os que te amam, por Jesus Cristo, teu Filho amado,
pelo qual nos ensinaste, santificaste e glorificaste.
4 - Mestre, nós te pedimos: torna-te nosso socorro e nosso
protetor; salva os oprimidos entre nós; levanta os caídos;
mostra-te aos que oram; cura os fracos; leva ao bom caminho
aqueles do teu povo que erram; sacia os que têm fome;
liberta nossos presos; consola os fracos; conheçam-Te todos
os povos, porque Tu és o Deus único, e Jesus Cristo é Teu
Filho, e nós o Teu povo e ovelhas do Teu rebanho.
CAPÍTULO LX
1 - Pois Tu fizeste aparecer a harmonia eterna do universo
através das forças que nele operam. Tu, Senhor, criaste a
terra habitada. Tu te manténs fiel por todas as gerações, justo
nos julgamentos, admirável no poder e na majestade, sábio
ao criar e providente ao sustentar a criação, bom nos dons
visíveis, benigno para com os que em Ti confiam.
Misericordioso e compassivo, perdoas nossas iniqüidades,
pecados, faltas e negligências.
2 - Não leves em conta todo pecado de teus servos e servas,
purifica-nos, ao invés, com a purificação da tua verdade.
Dirige nossos passos para andarmos na santidade do
coração e para realizarmos o que é bom e agradável aos
Teus olhos e aos olhos dos que nos governam.
3 - Sim, Mestre, mostra-nos a tua face para o bem na paz,
para nos protegeres com Tua mão forte e nos preservares de
todo pecado por teu braço excelso e nos livrares de todos
quanto nos odeiam sem motivo
4 - Concede-nos harmonia e paz, a nós e a todos os
habitantes da terra, assim como as concedestes a nossos
pais quando Te invocaram santamente na fé e na verdade.
Torna-nos submissos a Teu Nome todo-poderoso e todo
santo, e aos que nos governam e dirigem sobre a terra.
CAPÍTULO LXI
1 - Tu, Senhor, lhes deste o poder da autoridade por tua força
magnífica e inefável, para que soubéssemos que por Ti lhes
foi dada a glória e a honra, e a ele nos submetêssemos em
nada contrariando a Tua vontade. Dai-lhes, portanto, Senhor,
saúde, paz, concórdia e estabilidade a fim de que possam
exercer sem obstáculos a soberania que lhes confiaste.
2 - Pois Tu, Senhor dos céus, Rei dos séculos, dás aos filhos
do homem honra, glória e poder sobre o que existe na terra.
Tu, Senhor, dirige sua vontade no sentido do que é bom e
agradável a Teus olhos, em Tua presença, a fim de que
exerçam a autoridade que lhes deste na paz e mansidão, e
obtenham Tua graça!
3 - Só Tu podes realizar esses bens e outros maiores ainda
entre nós. A Ti exaltamos pelo Sumo-Sacerdote e protetor de
nossas almas, Jesus Cristo. Por Ele Te seja dada glória e
magnificência, agora e de geração em geração, pelos séculos
dos séculos. Amém.
CAPÍTULO LXII
1 - Amados irmãos, escrevemo-vos o suficiente a respeito
das decisões mais acertadas para nossa religião, como
também a respeito da atitude mais favorável para as pessoas
que querem levar uma vida santa na piedade e justiça.
2 - Citamos todos os aspectos que dizem respeito à fé,
penitência, verdadeira caridade, continência, prudência e
paciência, recordando que vos é necessário agradar
santamente ao Deus poderoso em justiça, verdade e
generosidade, mantendo a concórdia pelo esquecimento da
injúria, no amor e na paz, com constante modéstia, como
também nossos pais que, como mencionamos, Lhe
agradaram, mantendo-se humildes na conduta para com o
Pai, Deus e Criador, e para com todos os homens.
3 - Tivemos tanto mais gosto em recordá-lo quanto mais
sabíamos estar escrevendo a homens de fé e consideração,
que se aprofundaram nas máximas do ensinamento de Deus.
CAPÍTULO LXIII
1 - É certo, assim, nos orientarmos por tais e tão grandes
exemplos. Curvemos nossa cabeça e ocupemos o lugar da
obediência, para acalmarmos a vã revolta e atingirmos com
lisura a meta proposta dentro da verdade.
2 - Haveis de nos proporcionar alegria e prazer se vos
submeterdes ao que escrevemos pelo Espírito Santo,
cortando pela raiz a ira nascida do ciúme, conforme o pedido
de paz e concórdia que vos fazemos por esta carta.
3 - Enviamo-vos homens de confiança e prudentes que,
desde a juventude até a idade mais avançada, tiveram uma
conduta irrepreensível entre nós, e que servirão de
testemunhas entre vós e nós.
4 - Assim fizemos para que saibais que toda a nossa
preocupação ia e continua indo ao sentido de que se
restabeleça imediatamente a paz entre vós.
CAPÍTULO LXIV
1 - No restante, que Deus, que tudo enxerga, Senhor dos
espíritos, Dono de toda carne e que escolheu o Senhor Jesus
Cristo e a nós por Ele, conceda a toda alma que tiver
invocado o Seu Nome magnífico e santo, fé, temor, paz,
paciência, generosidade, continência, pureza e prudência
para agradar ao Seu Nome pelo Sumo-Sacerdote e nosso
chefe, Jesus Cristo, pelo qual Lhe seja rendida glória,
majestade, poder e honra, agora e por todos os séculos dos
séculos. Amém.
CAPÍTULO LXV
1 - Aos nossos enviados, Cláudio Efebo e Valério Bito, junto
com Fortunato, enviai-os rapidamente de volta na paz e com
alegria, para que logo nos tragam notícias sobre a harmonia e
paz, pela qual tanto rezamos e suplicamos e assim, mais
depressa, nos alegremos da boa ordem entre vós.
2 - A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja convosco e
com todos os eleitos de Deus, através Dele por toda a parte.
Por Jesus, seja dada a Deus glória, honra, poder e
majestade, o trono eterno, desde todos os séculos e para
todos os séculos dos séculos. Amém.
Fim
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domingo, 27 de janeiro de 2019
CARTA DE PVBLIVS LENTVLVS
janeiro 27, 2019
Sem comentários
CICLO DE PILATOS
Há, na literatura apócrifa, um ciclo chamado de Pilatos, com vários textos que falam da
descida de Cristo ao Inferno, da Ressurreição e dos fatos ocorridos na vida de Pilatos,
Herodes e Tibério depois da Crucificação. Todos foram escritos durante os séculos I e II,
mas podem ter sofrido acréscimo e mutilações.
RETRATO DE JESUS
CARTA DE LENTULUS PUBLIUS AO IMPERADOR TIBÉRIO CÉSAR.
Eis aqui, enfim, a resposta que com tanta ansiedade esperáveis. Ultimamente apareceu
na Judéia um homem de estranho poder, cujo verdadeiro nome é Jesus Cristo, mas a quem
o povo chama "O Grande Profeta" e, seus discípulos, "O Filho de Deus". Diariamente
contam-se dele grandes prodígios: ressuscita os mortos, cura todas as enfermidades e traz
assombrada toda Jerusalém com a sua extraordinária doutrina.
É um homem alto e de majestosa aparência; sua face, ao mesmo tempo severa e doce,
inspira respeito e amor a quem a vê. Seu cabelo é da cor do vinho e desce ondulado sobre
os ombros; é dividido ao meio, ao estilo nazareno. Sua fronte, pura e altiva, sua cútis pálida
e límpida; a boca e o nariz são perfeitos; a barba é abundante e da mesma cor dos cabelos;
as mãos, finas e compridas; os braços, de uma graça encantadora; os olhos azuis, plácidos e
brilhantes.
É grave, comedido e sóbrio em seus discursos. Repreendendo e condenando, é terrível;
instruindo e exortando, sua palavra é doce e acariciadora. Ninguém o viu rir, mas muitos o
têm visto chorar. Caminha com os pés descalços e a cabeça descoberta. Vendo-o à
distância, há quem o despreze, mas em sua presença não há quem não estremeça com
profundo respeito.
Quantos se acercam dele, dizem haver recebido enormes benefícios, mas há quem o
acuse de ser um perigo para Vossa Majestade, porque afirma publicamente que os reis e os
escravos são todos iguais perante Deus.
RETRATO DO SALVADOR
Tinha Jesus um rosto belíssimo e vivo; o cabelo era alourado, não muito volumoso e
ligeiramente ondulado; sobrancelhas negras e ligeiramente arqueadas. Seus olhos, da cor
de azeitona, brilhavam com uma expressão admirável. Seu nariz era reto, barba loura, não
muito comprida, os cabelos eram bem longos, pois nenhuma navalha num mão de homem
algum jamais tocaram-lhe a cabeça, à exceção de sua Mãe, na infância. Mantinha o
pescoço algo inclinado, de sorte que não apresentava ar de arrogância. De tez clara, seu
rosto não era redondo nem comprido, mas mais comprido que largo e ligeiramente corado,
como as faces de sua Mãe. A seriedade, a prudência e a serenidade irmanavam-se e
resplandeciam em seu semblante. Em uma palavra, era de todo parecido com sua Mãe.
CARTA DE PÔNCIO PILATOS AO IMPERADOR ROMANO
Pôncio Pilatos saúda o Imperador Tibério César.
Jesus Cristo, que te apresentei explicitamente nos meus últimos relatórios foi,
finalmente, entregue a um duro suplício a pedido do povo, cujas instigações segui por medo
e contra minha vontade. Um homem piedoso e austero como esse, não existiu nem existirá
jamais em época alguma. Mas a verdade é que houve um estranho empenho do povo para
conseguir a crucificação deste embaixador da Verdade, além de uma conspiração de todos
os escribas, chefes e anciãos, malgrado os avisos dos seus profetas, ou, como nós dizemos,
as sibilas. E enquanto estava dependurado na cruz apareceram sinais que sobrepujavam as
forças naturais e que pressagiavam, segundo o entendimento dos filósofos, a destruição de
todo o mundo. Seus discípulos ainda vivem e não desdizem o Mestre nem suas obras e nem
a pureza de sua vida; e continuam ainda fazendo muito bem em seu nome. Portanto, se não
fosse pelo temor de uma possível revolta entre o povo que já estava quase enfurecido,
talvez aquele insigne varão ainda pudesse estar entre os vivos. Atribui, pois, mais ao meu
senso de fidelidade para contigo do que ao meu próprio capricho, o fato de não haver
resistido com todas as minhas forças para que o sangue de um justo, isento de toda culpa,
mas vítima da malícia humana, fosse perversamente vendido e sofresse toda a paixão.
Aliás, como dizem os intérpretes de suas escritas, poupá-lo redundaria em sua própria
ruína. Adeus. O quinto dia das calendas de abril.
CARTA DE TIBÉRIO A PILATOS
O que se segue é a resposta de César Augusto a Pôncio Pilatos, governador da província
oriental. O próprio César acrescentou uma sentença de seu próprio punho e letra e enviou-a
pelo mensageiro Raab, ao qual confiou, ainda, dois mil soldados:
"Uma vez que tiveste a ousadia de condenar Jesus Nazareno à morte, de uma maneira
violenta e totalmente perversa e, antes mesmo de proclamar a sentença condenatória,
puseste-O nas mãos dos insaciáveis e furiosos judeus; uma vez que, além disso, não tiveste
compaixão deste justo, mas depois de ensangüentar o açoite e de submetê-lo a uma horrível
sentença e ao tormento da flagelação, entregaste-o, sem nenhuma culpa de sua parte, ao
suplício da crucificação, não sem antes haver aceitado presentes pela sua morte; uma vez
que, enfim, manifestaste compaixão com os lábios, mas O entregaste de coração a alguns
judeus sem lei; por tudo isto, serás tu próprio conduzido à minha presença, carregado de
correntes, para que apresentes tuas desculpas e prestes contas da vida que entregaste à
morte sem nenhum motivo. Mas, ai da tua dureza e da tua falta de vergonha! Desde que
este fato chegou aos meus ouvidos, estou sofrendo na alma e sinto que minhas entranhas se
espedaçam, pois veio a mim uma mulher, que se diz discípula d'Ele (Maria Madalena, de
quem segundo afirma, expulsou sete demônios) e testemunhou que Jesus operou
portentosas curas, fazendo com que cegos vissem, coxos pudessem andar, surdos pudessem
ouvir, leprosos fossem limpos, e que todas estas curas aconteceram apenas com a sua
palavra. Como concordaste que fosse crucificado sem nenhum motivo? Porque, se não
querias aceitá-lo como Deus, deverias, pelo menos, ter-te compadecido d'Ele como médico
que era. Até o próprio relatório que me chegou de tua parte está reclamando o teu castigo,
já que nele afirmas que Aquele era superior a todos os deuses venerados por nós. Que se
passou para que o entregasses à morte? Saibas, pois, que, assim como tu O condenaste
injustamente e O mandaste matar, da mesma maneira eu, com todo o direito, farei justiça
contigo; e não somente contigo, mas também com todos os teus conselheiros e cúmplices
dos quais recebeste o suborno da morte."
Então Tibério César entregou a carta aos emissários e, juntamente com ela, a sentença
na qual ordenava por escrito que todo o povo dos judeus passasse pelo fio da espada e que
Pilatos fosse trazido como réu até Roma, juntamente com os principais dentre os judeus,
aqueles que à época eram governadores: Arquelao, filho do odiadíssimo Herodes, e seu
cúmplice Filipo; o pontífice Caifás e Anás, seu sogro, e todos os demais judeus
responsáveis.
Assim, pois, Rachaab marchou com os soldados e fez como lhe haviam ordenado,
passando pela espada todos os varões dentre os judeus, enquanto que as suas impuras
mulheres ficavam expostas à violação dos pagãos, o que fez brotar uma ralé abominável,
como, aliás, fora engendrado por Satã. Depois o emissário cuidou de Pilatos, de Arquelao e
Filipo, de Anás e Caifás e de todos os responsáveis dentre os judeus, e, carregando-os de
correntes, pôs-se com eles a caminho de Roma. Aconteceu que, ao passar por certa ilha
chamada Creta, Caifás perdeu a vida de uma maneira violenta e miserável. Então,
carregaram-no para sepultá-lo, mas nem sequer a terra dignou-se admiti-lo em seu seio, já
que o arremessava para fora. Quando os que ali estavam presenciaram esse fato, apanharam
pedras e arremessaram-nas sobre o cadáver, que foi desta forma enterrado. Os demais
chegaram até Roma.
Existia entre os reis da antigüidade o costume de livrar da condenação um réu de morte
que contemplasse o rosto real. César, então, deu as ordens necessárias para não se deixar
ver por Pilatos. Assim, pois, meteram-no numa caverna e ali o deixaram, conforme as
ordens do imperador.
Da mesma forma ordenou que Anás fosse envolto numa pele de boi, de modo que
quando o couro secasse ao sol ele fosse constringido e suas entranhas saíssem pela boca.
Assim, violentamente, perdeu ele sua miserável vida. Aos demais presos judeus executou-
os mandando passá-los pelo fio da espada. Mas a Arquelao, o filho do odiadíssimo
Herodes, e a seu cúmplice Filipo, condenou-os ao suplício da empalação.
Certo dia o imperador saiu de casa para uma caçada e ia em perseguição a uma gazela,
quando esta parou precisamente em frente à boca da caverna onde estava Pilatos. Já
próximo da execução, Pilatos tentou fixar seus olhos em César, mas não o conseguiu
porque a gazela postou-se na frente dele. César então disparou uma flecha, visando o
animal, mas o projétil atravessou a entrada da caverna e matou Pilatos. Todos aqueles que
crêem ser Cristo o verdadeiro Deus e nosso Salvador, glorificai-O e engrandecei-O, pois a
Ele pertencem a bem-aventurança, a honra e a adoração junto ao seu Pai no princípio e seu
Espírito consubstancial, agora e sempre e por todos os séculos dos séculos. Amém.
RELATÓRIO DE PILATOS ENVIADO A CÉSAR AUGUSTO
Naqueles dias que se seguiram à crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao tempo de
Pôncio Pilatos, governador da Palestina e da Fenícia, estas memórias foram compostas em
Jerusalém e referem-se ao que os judeus fizeram contra o Senhor. Pilatos, então juntamente
com a sua correspondência particular, enviou este relatório a César:
"Ao excelentíssimo, piedosíssimo, diviníssimo e mui terrível César Augusto, o
governador da província oriental, Pilatos.
"Excelência: O relatório que lhe farei procede do fato de sentir-me coibido pelo temor e
pelo tremor. Pois já sabeis que nesta província que governa, única entre as cidade quanto ao
nome de Jerusalém, o povo judeu em massa entregou-me um homem chamado Jesus,
acusando-o de muitos crimes que não puderam demonstrar com suficientes razões. Havia
entre eles uma facção sua inimiga porque Jesus dizia-lhes que o Sabat não era dia de
descanso nem de festa para ser guardado. Ele, efetivamente, operou muitas curas nesse dia:
devolveu a visão a cegos e a faculdade de andar a coxos; ressuscitou os mortos; limpou os
leprosos; curou os paralíticos, incapazes de ter impulsos corporais ou ereção de nervos, mas
somente voz e articulações, dando-lhes forças para andar e correr. E extirpava qualquer
enfermidade somente com o uso de sua palavra. Outra nova ação mais assombrosa,
desconhecida entre nossos deuses: ressuscitou um morto de quatro dias somente dirigindo-
lhe a palavra; e é de se notar que o morto já tinha o sangue coagulado e estava putrefato
por causa dos vermes que saíam de seu corpo e exalava um mal cheiro de cão. Vendo-o,
então, imóvel como estava no sepulcro, ordenou que se levantasse e corresse; e ele, como
se não tivesse um mínimo de cadáver, mas fosse como um esposo que sai do quarto
nupcial, assim saiu do sepulcro, transbordante de perfume.
"E a alguns estrangeiros, totalmente endemoniados, que moravam nos desertos e
comiam suas próprias carnes, conduzindo-se como bestas e répteis, também a eles tornou-
os honrados cidadãos, fê-los prudentes com a sua palavra e preparou-os para serem sábios,
poderosos e gloriosos e para confraternizarem com todos os que odiavam os espíritos
imundos e perniciosos que habitavam neles anteriormente, os quais arremessou nas
profundezas do mar.
"Alem disso, havia outro que tinha a mão seca. Melhor dizendo, não somente a mão,
mas toda a metade do seu corpo estava petrificada, de maneira que não tinha nem a figura
de um homem nem a dilatação de músculos. Também este foi curado com somente uma
palavra e ficou sadio.
"Havia uma outra mulher com problemas hemorrágicos, cujas articulações e veias
estavam esgotadas pelo fluxo de sangue, a tal ponto que já nem sequer se podia dizer que
tinha um corpo humano. Mais se assemelhava a um cadáver. Havia ficado até sem voz. Tal
era a gravidade de seu estado que nenhum médico do território encontrou uma forma de
curá-la ou sequer de lhe dar uma esperança de vida. Certa vez Jesus passava por ali em
segredo e a mulher, retirando forças da sombra dele, tocou, por detrás, a fímbria de sua
túnica. Imediatamente sentiu uma força que preenchia seus vazios e, como se nunca tivesse
estado doente, começou a correr agilmente em direção à sua cidade, Cafarnaum,
caminhando de tal forma que quase igualava qualquer pessoa que percorresse de uma só
vez seis jornadas.
"Isto, que acabo de relatar com toda a ponderação, Jesus fez num Sabat. Além disso,
operou outros milagres maiores do que estes, de maneira que chego a pensar que suas
façanhas são superiores àquelas que fazem os deuses venerados por nós.
"Este, pois, é Aquele a quem Herodes, e Arquelao, e Filipo, Anás e Caifás, entregaram-
me em conivência com todo o povo, pressionando-me para que eu o julgasse. E assim,
embora sem haver constatado de sua parte nenhum tipo de delito ou má ação, mandei que O
crucificassem depois de submetê-lo à flagelação.
"E enquanto O crucificavam sobrevieram algumas trevas que cobriam toda a terra,
deixando o sol obscurecido em pleno meio-dia e fazendo aparecer as estrelas, as quais não
resplandeciam; a luz parou de brilhar, como se tudo estivesse tingido de sangue, e o mundo
dos infernos foi absorvido; e, com a queda dos infernos, até mesmo o que era chamado de
santuário desapareceu da vista dos próprios judeus. Finalmente, pelo eco repetido dos
trovões, produziu-se uma fenda na terra.
"E quando ainda o pânico se fazia sentir apareceram alguns mortos que havia
ressuscitado, como testemunharam os próprios judeus, e disseram ser Abraão, Isaac, Jacó,
os doze patriarcas, Moisés e Job, e, como eles diziam, os primeiros dos que haviam falecido
três mil e quinhentos anos antes. E muitíssimos deles, que eu também pude ver que
apareceram fisicamente, lamentavam-se por sua vez, por causa dos judeus, pela
prevaricação que estavam cometendo, pela sua perdição e pela perdição de sua lei.
"O medo do terremoto durou desde a sexta até a nona hora da sexta-feira. E, ao chegar a
tarde do primeiro dia da semana, ouviu-se um eco vindo do céu, que por sua vez adquiria
um resplendor sete vezes mais vivo que todos os dias. Na terceira hora da noite chegou a
aparecer o sol, brilhando mais que nunca e embelezando todo o firmamento. E da mesma
forma que no inverno os relâmpagos sobrevêm de repente, assim também apareceram
subitamente alguns varões, excelsos pelas suas vestes e pela sua glória, que tinham vozes
semelhantes ao soar de um enorme trovão, dizendo: "Jesus, o que foi crucificado acaba de
ressuscitar. Levantai do abismo aqueles que estão presos nas profundezas do inferno". E a
fenda da terra era tamanha que parecia não ter fundo, já que deixava ver os próprios
fundamentos da terra, entre os gritos daqueles que estavam no céu e passeavam fisicamente
no meio dos mortos que acabavam de ressuscitar. E Aquele que deu vida aos mortos e
acorrentou o inferno dizia: "Dai este aviso aos meus discípulos: Ele segue à vossa frente até
a Galiléia; ali poderão vê-lo'."
"Durante toda aquela noite a luz não deixou de brilhar. E muitos dos judeus pereceram
absorvidos pela fenda da terra, de maneira que no dia seguinte grande parte dos que haviam
estado contra Jesus já não estavam ali. Outros viram aparições de ressuscitados que nenhum
de nós havia visto. E em Jerusalém não ficou nem uma só sinagoga dos judeus, pois todas
desapareceram naquele terremoto. Assim, estando fora de mim devido àquele pânico e
tolhido ao extremo por um horrível tremor, fiz para vossa excelência o relatório escrito do
que meus olhos viram naqueles momentos. E, além disso, rememorando o que os judeus
fizeram contra Jesus, remeto este relatório à vossa divindade. Oh Senhor!"
CORRESPONDÊNCIA ENTRE PÔNCIO PILATOS E HERODES
CARTA DE PILATOS A HERODES
Pilatos, governador de Jerusalém, saúda o tetrarca Herodes.
Não foi nada bom o que fiz sob a tua orientação, naquele dia em que os judeus
apresentaram-me Jesus, o chamado Cristo. Pois da mesma maneira que foi crucificado,
assim também ressuscitou no terceiro dia de entre os mortos, como alguns acabam de
anunciar-me dentre eles o centurião. Eu próprio decidi enviar uma expedição até a Galiléia
e todos testemunham havê-lo visto em seus próprio corpo conservando o mesmo semblante.
Chegou a deixar-se ver por mais de quinhentas pessoas, com a mesma voz e com idênticos
ensinamentos. Estes indivíduos têm andado por aí dando testemunho disso e, longe de
vacilar, têm pregado a sua ressurreição como um extraordinário fenômeno e anunciado um
reino eterno, a ponto de os céus e a terra parecerem alegrar-se com seus santos
ensinamentos.
E saberás que Procla, minha mulher, dando crédito às aparições que teve d'Ele, quando
eu estava quase mandando crucificá-lo devido à tua instigação, deixou-me sozinho e foi-se
com dez soldados e Longinos, o fiel centurião, para contemplar o seu semblante, como se
tratasse de um grande espetáculo. E viram-no sentado numa plantação, rodeado de grande
turba e ensinando as magnificências do Pai; de forma que estavam todos fora de si e cheios
de admiração, pensando se aquele que havia padecido o tormento da crucificação havia
ressuscitado de entre os mortos.
E, enquanto todos O estavam observando com grande atenção, Ele divisou Procla e
Longinos e dirigiu-se até eles nos seguintes termos: "Ainda não acreditais em mim? Por
ventura não foste tu que fizeste a guarda durante a minha paixão e vigiaste meu sepulcro?
E tu, mulher, não é aquela que enviaste ao teu esposo uma carta sobre mim? [...] o
testamento de Deus que o Pai dispôs. Então, eu que fui crucificado e sofri muitas coisas,
vivificarei através da minha morte, tão vossa conhecida, toda a carne que pareceu. Agora,
então, saberás que todo aquele que acreditou em Deus Pai e em mim não perecerá, pois eu
fiz desaparecer as dores da morte e atravessei o dragão de muitas cabeças. E, por ocasião da
minha futura vinda, cada um ressuscitará com o mesmo corpo e alma que tem agora e
abençoará o meu Pai, o Pai daquele que foi crucificado na época de Pôncio Pilatos".
Ao ouvir dizer tais coisas, tanto minha mulher, Procla, como o centurião que teve a seu
encargo a execução de Jesus, bem como os soldados que haviam ido em sua companhia,
puseram-se a chorar, cheios de aflição, e vieram até minha presença contar-me essas coisas.
Eu, de minha parte, depois de ouvi-las, relatei-as aos meus grandes comissários e
companheiros de milícia; estes, cheios de aflição e ponderando o mal que haviam feito
contra Jesus, puseram-se a chorar; e mesmo assim eu, compartilhando a dor da minha
mulher, estou entregue ao jejum e durmo sobre a terra. Nesse instante veio o Senhor e
levantou-nos do chão a mim e à minha mulher; então fixei meus olhos nEle e vi que seu
corpo ainda conservava as equimoses. E Ele colocou suas mãos sobre os meus ombros,
dizendo: "Bem-aventurado chamar-te-ão todas as gerações e povos, porque na tua época
morreu e ressuscitou o Filho do Homem e agora subirá aos céus e sentar-se-á acima de
tudo. E todas as tribos da terra dar-se-ão conta de que eu sou aquele que julgará os vivos e
os mortos no último dia".
CARTA DE HERODES A PILATOS
Herodes, tetrarca dos galileus, saúda o governador dos judeus, Pôncio Pilatos.
Estou tomado de uma grande aflição, conforme dizem as Sagradas Escrituras, pelas
coisas que passarei a relatar-te, assim como penso que tu, de tua parte, afligir-te-ás ao lê-
las. Saiba que minha filha Herodíades, a quem eu amo ardentemente, faleceu quando
brincava junto à água coberta de gelo e ele quebrou-se. Seu corpo afundou e a cabeça,
decepada pelo gelo, ficou na superfície. Então sua mãe a recolheu, pois o restante do corpo
perdeu-se nas águas. Agora, minha mulher, chorando, aperta a cabeça nos joelhos, e toda a
minha casa está entregue a uma dor sem fim.
Eu, de minha parte, encontro-me rodeado de muitos males, desde o momento em que
soube que tu havias desprezado a Jesus, e quero pôr-me a caminho somente para vê-lo,
adorá-lo e escutar alguma palavra de Seus lábios, pois pratiquei muitas maldades contra
Ele e contra João Batista; certamente estou recebendo com toda a justiça o que mereço, pois
meu pai derramou sobre a terra muito sangue de filhos alheios por causa de Jesus, e eu, por
minha vez, degolei João, aquele que O batizou.
Justos são os desígnios de Deus, porque cada qual recebe a sua recompensa de acordo
com os seus desejos. Assim, pois, já que te é dado ver Jesus novamente, luta agora por mim
e diz-lhe uma palavra a meu favor; porque a vós, os gentios, vos foi entregue o Reino,
conforme o que disseram Cristo e os profetas.
Asbonius, meu filho, está na agonia da hora da morte, preso a uma doença extenuante, já
faz alguns dias, Eu, de minha parte, encontro-me gravemente doente, submetido ao
tormento da hidropisia, ao ponto de saírem vermes da minha boca. Minha mulher chegou
até a perder o olho esquerdo devido à desgraça que se abateu sobre minha casa. Justos são
os desígnios de Deus, porquanto ultrajamos o Olho da Retidão. Não há paz para os que
cometem maldades, disse o Senhor. Pois grande aflição abateu-se contra os sacerdotes e os
escribas da lei. A morte chegará depressa a eles e ao senado dos filhos de Israel, pois
iniquamente puseram suas mãos sobre o Justo. Tudo isto veio a cumprir-se na consumação
dos séculos; e assim, as nações gentias receberão como herança o Reino de Deus, enquanto
que os filhos da luz serão arremessados fora por não terem observado o que fora pregado
com relação ao Senhor e ao seu Filho. Cinja, pois, teus rins, e abraça a Justiça, tu e tua
mulher, lembrando Jesus dia e noite; e o Reino pertencerá a vós, os gentios, pois que os
escolhidos rejeitaram o íntegro. E se é que há lugar para minhas súplicas, ó Pilatos, visto
que estivemos no poder ao mesmo tempo, dá-nos sepultura, a mim e aos da minha casa,
uma vez que queremos ser sepultados por ti e não pelos sacerdotes, aos quais em breve os
espera o Juízo, segundo as Escrituras, na vinda de Jesus Cristo. Adeus a ti e a Procla, tua
mulher.
Enviei-te os brincos de minha filha e meu próprio anel, para que sejam uma memória de
minha morte, pois já sinto os vermes aflorarem-se-me em todo meu corpo, pois que estou
recebendo o castigo temporal; mas tenho mais medo do julgamento que advirá, pois em
ambos estarei diante das obras do Deus vivo. Mas esse julgamento, que é temporal, é só
durante um período, mas o outro, será eterno.
Fim da Carta de Herodes a Pilatos, o Governador.
JULGAMENTO E CONDENAÇÃO DE PILATOS
A carta chegou a Roma e foi lida a César na presença de não poucas pessoas. E todas
ficaram atônitas ao ouvir que, por causa do delito de Pilatos, as trevas e o terremoto haviam
afetado toda a terra. E César, encolerizado, enviou soldados para que prendessem Pilatos.
Conduzindo Pilatos a Roma, e tendo César sido inteirado de sua chegada, sentou-se o
imperador no templo dos deuses, à frente do senado, acompanhado de todos os militares e
da multidão que integrava suas forças, e deu ordens para que Pilatos se aproximasse e
ficasse em pé. E a seguir disse-lhe: "Por que tiveste a ousadia de fazer tais coisas, monstro
de impiedade, depois de haveres visto prodígios como os que fazia aquele homem? Por
teres te atrevido a cometer tal vilania, causaste a ruína do universo".
Mas Pilatos replicou: "Oh imperador!, eu não sou culpado disto; os incitadores e
responsáveis são os judeus". E perguntou César: "E quem são eles?" Pilatos respondeu:
"Herodes, Arquelao, Filipo, Anás. Caifás e toda a turba do judeus." César retrucou: "E por
que tu te curvaste ao propósito deles?" Pilatos disse: "Sua nação é revoltada e insubmissa;
não se submete ao vosso império. Ao que César replicou: "Em lugar de tê-lo entregue,
deverias tê-lo colocado em lugar seguro e O enviado a mim, e não deixar que eles te
persuadissem a crucificar um ser notável como este, que era justo e que fazia prodígios tão
bons como os que fazias constar de teu relatório. Pois sinais como estes permitem conhecer
que Jesus era o Cristo, o rei dos judeus".
Mal César acabara de mencionar o nome de Cristo e toda a caterva de deuses
desmoronou e ficou reduzida a uma nuvem de pó que ocupou o recinto no qual César
estava sentado na companhia do senado. E o povo que estava na presença de César ficou
amedrontado ao ouvir pronunciar o nome e presenciar a queda daqueles deuses, e, aterrado
pelo medo, correu para casa, cheio de admiração pelo que acabava de presenciar. Então
César ordenou que Pilatos fosse submetido a uma severa vigilância, de forma que ele
pudesse conhecer a verdade sobre o que se relacionava a Jesus.
No dia seguinte César sentou-se no Capitólio juntamente com o senado em peso e
propôs-se a interrogar Pilatos novamente. Então César disse: "Dize a verdade, monstro de
impiedade, pois, pela ímpia ação que levantaste a cabo contra Jesus, tua má conduta veio
manifestar-se até aqui, com os deuses fazendo-se em pedaços. Dize-me, então, quem é
aquele crucificado, já que seu nome trouxe a perdição até aos nossos deuses?" Pilatos
respondeu: "Efetivamente, tudo o que d'Ele se fala é verdadeiro; eu próprio, ao ver suas
obras, cheguei a persuadir-me de que aquela notável pessoa era de uma categoria superior
aos deuses que nós veneramos". Então César perguntou: "Como, então, tiveste a ousadia de
fazer aquilo contra Ele, conhecendo-O como O conhecias? Ou o fato é que tramavas algum
mal contra o meu império?" Mas Pilatos respondeu: "Fiz isto pela iniqüidade e pela
sublevação desses judeus sem lei e sem Deus".
Então, encolerizado, César pôs-se a deliberar com todo o senado e com seu exército. E
mandou escrever um édito contra os judeus nos seguintes termos: "A Liciano, governador
da província oriental, saúde. Chegou ao meu conhecimento o ato atrevido e ilegal que teve
lugar em nosso tempo por parte dos judeus que habitam Jerusalém e as cidades
circunvizinhas, até o ponto de terem obrigado Pilatos a crucificar um certo deus chamado
Jesus, crime tão horrendo que por ele o universo, envolto em trevas, quase ia sendo
arrastado à ruína. Então, faz cair cobre eles tuas forças, e declara a escravidão por meio do
presente édito. Sê obediente à ordem de atacá-los e esparramá-los pelo mundo; reduz à
servidão os judeus em todas as nações, e, depois de expulsar de toda a Judéia até a relíquia
mais insignificante de sua raça, faz com que nada deles se conserve, cheios como estão de
maldade".
Tendo este édito chegado ao Oriente, Liciano obedeceu ao terrível teor da ordem e
exterminou a nação inteira dos judeus; e os que ficaram na Judéia, lançou-os à diáspora das
nações para serem escravos, de maneira que chegou ao conhecimento de César o que
Liciano havia feito contra os judeus no Oriente, o que o agradou.
E César dispôs-se novamente a julgar Pilatos. Depois mandou que um chefe chamado
Álbio lhe cortasse a cabeça dizendo: "Da mesma maneira que este levantou a sua mão
contra aquele homem justo chamado Cristo, de maneira semelhante este também cairá sem
remissão".
Mas Pilatos, quando chegou ao lugar indicado, pôs-se a orar em silêncio desta forma:
"Senhor, não me faças perder na companhia dos perversos hebreus, pois eu não teria
levantado a minha mão contra Ti não fosse o povo dos judeus iníquos, que se rebelaram
contra Ti; mas sabes que agi sem saber. Assim, então, não me faças perder por este pecado,
porém sê benigno comigo, ó Senhor, e com Tua serva Procla, que está ao meu lado nesta
hora da minha morte e a quem dignaste designar como profetisa da Tua futura crucificação.
Não condenes também a ela pelo meu pecado, mas perdoa-nos e conta-nos dentre os Teus
escolhidos".
E eis que, após Pilatos terminar sua oração, sobreveio uma voz que dizia: "Bem-
aventurado chamar-te-ão as gerações e as pátrias das gentes, porque no teu tempo
cumpriram-se todas estas coisas que tinham sido ditas pelos profetas sobre mim; e haverás
de ser testemunha por ocasião da minha segunda vinda, quando irás julgar as doze tribos de
Israel e aqueles que não reconheceram meu nome". E o executor lançou por terra a cabeça
de Pilatos, e eis que um anjo do Senhor recebeu-a. E Procla, sua mulher, transbordando de
alegria ao ver o anjo que vinha para receber a cabeça dele, entregou também seu espírito no
mesmo instante, e foi sepultada juntamente com seu marido.
MORTE DE PILATOS, O QUE CONDENOU JESUS
Tibério César, imperador dos romanos, encontrando-se acometido de uma grave doença
e tendo-se inteirado de que em Jerusalém havia um médico chamado Jesus, o qual curava
todas as doenças somente com a sua palavra, ignorando que os judeus e Pilatos Lhe
haviam dado a morte, expediu a seguinte ordem a Volusiano, alguém muito chegado a ele:
"Vai o mais cedo possível até o outro lado do mar e diz a Pilatos, meu servidor e amigo,
que me envie este médico para que me restitua o estado de saúde no qual me encontrava
antes".
Volusiano, ouvindo a ordem do imperador, partiu no mesmo instante e chegou até
Pilatos, de acordo com a ordem recebida. E contou ao mencionado Pilatos, o que havia sido
encarregado por Tibério César, dizendo: "Tibério César, imperador dos romanos, teu
senhor, ao tomar conhecimento de que se encontra nesta cidade um médico capaz de curar
todas as doenças somente com a sua palavra, roga-te encarecidamente que o envies para
que o cure de seu mal. Quando Pilatos ouviu isto, ficou muito atemorizado, descobrindo
que O havia feito matar por inveja. Então, assim respondeu Pilatos ao citado mensageiro:
"Aquele homem era um malfeitor e levava todo o povo atrás de si. Motivo pelo qual, depois
de promover um conselho entre os sábios da cidade, mandei que fosse crucificado".
Quando o mensageiro em questão voltava para sua casa, encontrou-se com uma certa
mulher chamada Verônica, que havia conhecido Jesus, e disse-lhe: "Mulher, havia um certo
médico residente nesta cidade, que somente com a sua palavra curava os doentes, por que
os judeus o mataram?" Mas ela começou a chorar, dizendo: "Ai de mim! O senhor, era o
meu Deus e me Senhor, a quem Pilatos por inveja entregou, condenou e mandou
crucificar".
Então ele, embargado por uma dor profunda, disse: "Sinto-o enormemente, porque não
vou poder cumprir a missão que meu senhor me confiou". Verônica disse-lhe: "Quando
meu Senhor ia pregar, eu me sentia mal, já que ficava privada da sua presença; então que
me fizessem um retrato para que, enquanto eu não pudesse desfrutar sua companhia,
pudesse ao menos consolar-me com a figura da sua imagem. E, estando eu a caminho para
levar o lenço ao pintor para que O desenhasse, meu Senhor veio ao meu encontro e
perguntou-me onde ia. Quando manifestei-lhe meu propósito, pediu-me o lenço e mo
devolveu com a imagem de seu venerável rosto. Portanto, se teu senhor olhar sua imagem
com devoção, ver-se-á imediatamente agraciado com o benefício da cura". Então ele disse-
lhe: "Um tal retrato pode ser adquirido com ouro ou com prata?" Ela respondeu: "Não, tão
somente com um piedoso afeto de devoção. Irei contigo e levarei a imagem para que César
a veja; depois voltarei".
Então, veio Volusiano a Roma em companhia de Verônica e disse ao imperador Tibério:
"Aquele Jesus, a quem tu já ha algum tempo vens desejando ver, foi entregue por Pilatos e
pelos judeus a uma morte injusta e por inveja foi pregado no patíbulo da cruz. Porém veio
em minha companhia certa senhora que traz consigo um retrato do próprio Jesus; se tu o
olhares com devoção, obterás de imediato o benefício da tua cura". Então César fez com
que o caminho fosse atapetado com panos de seda e ordenou que a imagem lhe fosse
apresentada. E, no instante em que a olhou, recobrou sua antiga saúde.
Em conseqüência, Pôncio Pilatos foi detido por ordem de César e trazido a Roma.
Quando o imperador tomou conhecimento da sua chegada, sentiu-se dominado por uma
enorme fúria contra ele e ordenou que o levassem à sua presença. Deve-se esclarecer que
Pilatos havia trazido consigo a túnica de Jesus, feita de uma só peça, dádiva que levou à
presença do imperador. Assim que o viu, o imperador sentiu-se destituído de toda a sua ira,
levantou-se imediatamente diante dele e não ousou em dizer uma única palavra dura. E,
assim, ele, que na sua ausência parecia tão feroz e terrível, agora, na sua presença, estava
até certo ponto manso. Mas, assim que o despediu, começou a exaltar-se terrivelmente
contra ele, chamando-se a si mesmo, aos gritos, de miserável por não haver manifestado a
indignação de seu peito. E no mesmo instante fez com que o chamassem novamente,
jurando e declarando que era filho da morte e que não era lícito que ele vivesse sobre a
terra. Porém, quando o viu de novo, saudou-o imediatamente e sentiu-se destituído de novo
de toda a ferocidade de sua alma.
Todos, até ele próprio, estavam admirados com o fato de ele encolerizar-se na ausência
de Pilatos, enquanto que na sua presença não era capaz de dizer sequer uma palavra áspera.
Finalmente, por inspiração divina, ou talvez por conselho de algum cristão, mandou que o
despojassem daquela túnica. No mesmo instante recobrou sua antiga feracidade de alma
contra ele. Grandemente admirado com esse fato, o imperador ficou sabendo que aquela
túnica havia pertencido a Jesus. Então ordenou que atirassem Pilatos na cadeia, enquanto o
conselho de sábios deliberava o que deveria ser feito com ele. Poucos dias depois ditou-se a
sentença contra Pilatos para que fosse levado a uma morte extremamente infamante.
Quando isto chegou aos ouvidos de Pilatos, ele próprio suicidou-se com uma faca, e com
esta morte pôs fim à sua vida.
Ao tomar conhecimento do ocorrido, César disse: "Na verdade morreu
ignominiosamente, já que sua própria mão não o perdoou". Então amarraram-no em uma
enorme pedra e o atiraram nas profundezas do Tibre. Aconteceu, porém, que alguns
espíritos imundos e malignos, aproveitando-se daquele corpo nas suas próprias condições,
moviam-se naquelas águas e atraíram para elas raios e tempestades, trovões e granizo, até o
ponto de todos assustarem-se e sentirem um grande temor. Por causa disto os romanos
tiraram-no do rio Tibre e levaram-no ao som de galhofas até Viena e o arremessaram nas
profundezas do Ródano, já que Viena significa "Caminho para a Geena" (inferno), por ser
naquele tempo um lugar maldito. Mas também ali os espíritos maus apareceram, fazendo as
mesmas coisas, então a população, não suportando uma invasão tão grande de demônios,
atirou para longe aquele maldito fardo e diligenciou para que recebesse sepultura no
território de Lausane. Os habitantes desta região, sentindo-o excessivamente conturbados
pelas invasões, atiraram-no por sua vez longe deles, num poço rodeado de montanhas, lugar
que, se dermos crédito ao que algumas pessoas contam, dizem que ainda é agitado por
algumas maquinações diabólicas.
A SENTENÇA DE PILATOS
"Cópia da sentença dada por Pôncio Pilatos, governador da Judéia no ano 18 (sic) de
Tibério César, Imperador de Roma. Encontrada na cidade de Aquila, no reino de Nápoles.
Sentenciou Jesus Cristo, Filho de Deus e da Virgem Maria, à morte na cruz, no meio de
dois ladrões, no dia 25 de março. Achada milagrosamente dentro de uma belíssima pedra,
na qual estavam duas caixinhas: uma, de ferro, tinha dentro dela outra de finíssimo marfim,
onde estava a sentença, em letra hebraica, em pergaminho, do seguinte teor:
"No ano XVIII de Tibério César, imperador romano e de todo o mundo, Monarca
Invencível na Olimpíada c.xxi, na Clíade xxiv e na Criação do Mundo, segundo os números
e cálculos dos Hebreus, quatro vezes m.c.Ixxxvii, e da propagação do Império Romano
l.xxiii, da libertação da escravidão da Babilônia m.cc.xi, sendo Cônsules do Povo Romano
Lúcio Pisano e Maurício Pisarico; Procônsules Lúcio Balesma, público Governador da
Judéia, e Quinto Flávio, sob o regimento e Governo de Jerusalém, Governador gratíssimo
Pôncio Pilatos, regente da baixa Galiléia, e Herodes Antipas, Pontífices do Sumo Sacerdote
Anás, Alit Almael o Mago do Templo, Roboan Ancabel, Franchino Centurião, e Cônsules
Romanos e da Cidade de Jerusalém Quinto Cornélio Sublima e Sexto Pontílio Rufo; no dia
xxv do mês de Março. "EU, Pôncio Pilatos, aqui Presidente Romano dentro do Palácio da
Arquipresidência, julgo, condeno e sentencio à morte a Jesus chamado pela plebe Cristo
Nazareno, e de pátria Galiléia, homem sedicioso de Lei Mosaica, contrário ao grande
Imperador Tibério César; e determino, e pronuncio, pela presente, que sua morte seja na
cruz, e pregado com cravos como se usa com os réus, porque aqui congregando e juntando
muitos homens ricos e pobres não parou de causar tumultos por toda a Judéia, fazendo-se
filho de Deus e Rei de Jerusalém, ameaçando trazer a ruína para esta Cidade, e para seu
Sagrado Templo, negando o tributo a César, e tendo ainda tido o atrevimento de entrar com
palmas, em triunfo, e com parte da plebe, na Cidade de Jerusalém e no Sagrado Templo. E
ordeno que meu primeiro Centurião Quinto Cornélio leve publicamente Jesus Cristo pela
cidade, amarrado e açoitado, e que seja vestido de púrpura e coroado com alguns espinhos,
com a própria Cruz nos ombros para que seja exemplo a todos os malfeitores; e com ele
que sejam levados dois ladrões homicidas, e sairão pela Porta Sagrada, agora Antoniana, e
que leve Jesus ao monte público da Justiça chamado Calvário, onde crucificado e morto
fique o corpo na Cruz, como espetáculo para todos os malvados; e que sobre a Cruz seja
colocado o título em três idiomas, e em todos três (Hebraico, Grego e Latim) diga: IESUS
NAZAR. REX IUDAEORUM.
"Da mesma maneira, ordenamos que ninguém de qualquer estado ou qualificação
atreva-se temerariamente a impedir tal Justiça por mim ordenada, administrada e executada
com todo o rigor segundo os decretos e Leis Romanas e Hebréias, sob pena de rebelião ao
Império Romano Testemunhos da Sentença: pelas 12 tribos de Israel, Rabain Daniel,
Rabain seg.12, Joannin Bonicar, Barbasu, Sabi Potuculam. Pelos Fariseus, Búlio, Simeão,
Ronol, Rabini, Mondagul, Boncurfosu. Pelo Sumo Sacerdócio, Rabban, Nidos, Boncasado,
Notários desta publicação; pelos Hebreus, Nitanbarta; Pelo Julgamento, e pelo Presidente
de Roma Lúcio Sextilio, Amásio Chlio."
A VINGANÇA DO SALVADOR
Nos dias do imperador Tibério César, sendo Herodes tetrarca, sob o domínio de Pôncio
Pilatos, Cristo foi entregue pelos judeus e declarado inocente por Tibério.
Por aqueles dias, estava Tito de chefe de estado, sob as ordens de Tibério, na região de
Equitânia, em uma cidade da Líbia chamada Burgidalla. Sabe-se que Tito tinha uma chaga
na parte direita do nariz, originada, diz-se, por um câncer, que tornava seu rosto desfeito até
o olho.
Naquele tempo saiu da Judéia um homem chamado Natan, filho de Naum. Este era um
ismaelita que ia de região em região e de mar em mar, por todos os confins da terra. Natan
vinha como enviado da Judéia ao imperador Tibério, sendo portador de um tratado que
haviam feito com a cidade de Roma. Nota-se que Tibério estava doente, cheio de úlceras,
febres malignas e nove tipos de lepra.
Natan tinha a intenção de dirigir-se a Roma, mas soprou o vento do norte e mudou sua
rota, fazendo com que ele chegasse a um porto da Líbia. Tito, que viu a neve chegar, soube
que vinha da Judéia. E todos encheram-se de admiração e concordaram que nunca haviam
visto nenhuma embarcação chegar ali em semelhantes condições.
Então Tito fez com que o chefe da nave fosse chamado e perguntou-lhe quem era. Ele
respondeu: "Eu sou Natan, filho de Naum, de origem ismaelita, e vivo na Judéia sob o
domínio de Pôncio Pilatos. Agora sou enviado a Tibério, imperador romano, com o
objetivo de colocar em suas mãos um tratado proposto pela Judéia. Mas um forte vento
jogou-se sobre o mar, e eis-me aqui numa região para mim desconhecida".
E Tito disse: "Se porventura fores capaz de encontrar algum medicamento, seja de
misturas ou de ervas, que sirva para curar-me a ferida que, como vês, tenho no rosto, de
maneira que eu possa sarar e recuperar minha antiga saúde, cobrir-te-ia de favores".
Natan respondeu: "Senhor, eu, de minha parte, não sei nem conheço coisas semelhantes
a essas que me indicas. Não obstante, se estivesses estado há algum tempo em Jerusalém,
ali terias encontrado um profeta eleito, cujo nome era Emmanuel (pois Ele há de salvar o
povo dos seus pecados). Ele operou seu primeiro milagre em Canaã da Galiléia,
convertendo a água em vinho; e com sua palavra limpou os leprosos, fez o demônio fugir,
ressuscitou três mortos, libertou uma mulher surpreendida em adultério, condenada pelos
judeus a ser lapidada, e a uma outra mulher chamada Verônica, que sofria de hemorragias
desde os seus onze anos e que se aproximou dele por trás, tocando a fímbria de suas vestes,
curou-a também; e com cinco pães e dois peixes saciou a cinco mim homens, sem contar
mulheres e crianças, ficando doze cestos de vime de sobras. Todas estas e muitas outras
aconteceram antes de sua paixão. Depois de sua ressurreição vimo-lo com o mesmo corpo
que antes havia tido".
Então Tito disse: "Como ressuscitou de entre os mortos? Então Ele esteve morto'? Natan
respondeu: "Sem dúvida alguma ele morreu; foi dependurado numa cruz e depois morto
despendurado dela; esteve três dias no sepulcro; depois ressuscitou de entre os mortos e
baixou aos infernos, onde libertou os patriarcas, profetas e a todo humano com
descendência; depois apareceu aos discípulos e partilhou a refeição com eles; e, finalmente,
viram-no subir ao céu. De maneira que é verdade tudo o quanto venho dizendo-lhes. Eu
mesmo O vi com meus próprios olhos, bem como a casa inteira de Israel". Então Tito
exclamou: "Ai de ti, imperador Tibério, cheio de úlceras e cercado de lepra, por haveres
cometido um tal escândalo durante o teu reinado; por haveres promulgado algumas leis na
Judéia, terra natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, as quais serviram para prender o rei e
matar o governador dos povos, sem que O fizessem vir até nós para que limpasse de ti a
lepra e a mim me curasse de minha doença. Porque se isso houvesse acontecido diante de
meus olhos, com minhas próprias mãos teria dado a morte aos corpos daqueles judeus e os
teria pendurado num pedaço de pau por terem acabado com o meu Senhor sem que meus
olhos fossem dignos de ver o seu rosto".
E, no mesmo instante em que pronunciou essas palavras, a ferida do rosto de Tito
desapareceu, deixando sua carne e seu rosto novamente curados. E todos os doentes que ali
estavam recuperaram a saúde naquele mesmo momento. E Tito, junto com todos eles,
exclamou aos brados: "Meu rei e meu Deus, já que Tu me curaste sem que jamais O
houvesse visto, manda-me ir navegando sobre as águas até a terra onde nasceste para que
eu Te vingue dos teus inimigos; ajuda-me, Senhor, para que eu possa eliminá-los e vingar a
tua morte; Tu, Senhor, os entregarás em minhas mãos".
E, dizendo isto, mandou que o batizassem, para o que chamaram Natan e ele disse-lhe:
"Como viste serem batizados aqueles que acreditavam em Cristo, vem e batiza-me em
nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, absolve-me, pois creio firmemente em Nosso
Senhor Jesus Cristo com todo o meu coração e com toda a minha alma, porque não há
nenhum outro em nenhuma parte da terra que me tenha criado e que me tenha curado".
E dito esto, enviou legados a Vespasiano par avisá-lo que viesse o mais rapidamente
possível com os indivíduos mais fortes dispostos para a guerra.
Então Vespasiano tomou para si cinco mil homens armados e foi ter com Tito. E, ao
chegar á Líbia, disse-lhe: "A que se deve o fato de me haveres feito vir até aqui"? Ele
respondeu: "Hás de saber que Jesus veio a este mundo e nasceu na Judéia, num lugar
chamado Belém; que os judeus entregaram-no e foi flagelado e crucificado no monte
Calvário, e que, finalmente, manifestou-se aos seus discípulos e eles acreditaram Nele. Nós,
de nossa parte, queremos nos tornar discípulos seus. Agora, então, marcharemos e
eliminaremos os seus inimigos da superfície da terra para que se dêem conta de que não há
quem se assemelho a Nosso Senhor em toda a face da terra".
Assim, então, tomada a resolução, saíram da Líbia e embarcaram rumo a Jerusalém. Aí
chegando, sitiaram o reino dos judeus e começaram a provocar a sua ruína. Quando os reis
dos judeus tomaram conhecimento do que faziam e da devastação da terra, o medo
apoderou-se deles e ficaram consternados. E Arquelao, deixando-se levar pela comoção em
suas palavras, assim falou a seu filho: "Olha, filho, encarrega-te de meu reino e da sua
administração; além disso, ouve o conselho dos demais reis que estão na terra de Judá, de
maneira que possas escapar de nossos inimigos". E, dizendo isso, desembainhou sua espada
e jogou-se sobre ela; depois vergou a espada mais penetrante que possuía, fundiu-a em seu
corpo e morreu.
Então seu filho aliou-se aos outros reis que estavam sob as suas ordens. E, depois de
deliberar entre si, dirigiram-se todos para o centro de Jerusalém, na companhia dos nobres
que haviam assistido ao conselho, e ali permaneceram durante sete anos
Tito e Vespasiano, por seu lado, tomaram a determinação de sitiar a cidade. E assim
fizeram. Passados os sete anos, o problema da fome agravou-se muito e, forçados pela falta
de pão, começaram a comer a terra.
Então todos os soldados pertencentes aos quatro reis reuniram-se e decidiram: "De
qualquer maneira nós vamos morrer. Que nos fará Deus? E de que nos adianta continuar
vivendo, se os romanos vieram para apoderar-se de nossa terra e de nossa nação? Será
melhor que tiremos nossas próprias vidas, para que os romanos não possam dizer que foram
eles que nos mataram e nos derrotaram". E, então, tiraram suas espadas e feriram-se,
morrendo entre eles doze mil homens.
E assim, por causa dos cadáveres daqueles mortos, produziu-se um grande mal cheiro na
cidade. Os reis foram tomados por um pânico mortal e não puderam agüentar o odor deles,
nem dar-lhe sepultura, nem atirá-los fora da cidade. E disseram entre si: "Que havemos de
fazer? Na verdade nós matamos Cristo, mas já fomos, de nossa parte, entregues à morte.
Separemo-nos de nossas cabeças e entreguemos as chaves da cidade aos romanos, pois
Deus já nos atirou nas mãos da morte". E ato seguido subiram nas muralhas da cidade e
puseram-se a gritar, dizendo aos berros: "Tito e Vespasiano, tomais as chaves da cidade que
o Messias, chamado Cristo, acaba de entregar-lhes".
E assim dizendo entregaram-se a Tito e Vespasiano, exclamando: "Julgai-nos, pois
vamos morrer, já que julgamos o Cristo e o entregamos sem nenhuma razão". Então Tito e
Vespasiano os aprisionaram. Depois lapidaram alguns e penduraram outros na cruz, com os
pés para cima e a cabeça para baixo, e feriram-nos a golpes de lança; mas outro puseram à
venda e outros tantos repartiram entre si, em quatro partes, como eles haviam feito com as
vestes do Senhor. E disseram: "Eles venderam Cristo por trinta moedas de prata; vendamos
da mesma forma trinta deles por um só dinheiro". E assim o fizeram. Depois apoderaram-se
de todas as terras da Judéia e de Jerusalém.
Fizeram então uma investigação sobre o retrato da face do Senhor, sobre como poderiam
encontrá-lo. E ouviram dizer que estava em poder de uma mulher chamada Verônica.
Depois detiveram Pilatos e meteram-no na cadeia, onde haveria de ser custodiado por
quatro pelotões de soldados, quatro de cada vez, postados à porta da prisão.
Ato seguido enviaram seus legados a Tibério, imperador de Roma, para que os enviaste
a Velosiano. E o imperador lhe disse: "Leva contigo tudo que seja necessário para que te
faças ao mar e navegues até a Judéia em busca de algum discípulo daquele que se chamava
Cristo e Senhor, de maneira que ele venha até mim e em nome de Deus core-me da lepra e
das doenças que duramente me acometem e de minhas chagas, pois estou muito abatido.
Além disso, contra os reis de Judá, submetidos ao meu império, manda teus açoites e
terríveis instrumentos de tortura, pois mataram Jesus Cristo Nosso Senhor, e condena-os à
morte. E se encontrares um homem capaz de livrar-me desta doença, acreditarei em Cristo,
Filho de Deus, e far-me-ei batizar também em seu nome. "Velosiano disse: "Senhor
imperador, se eu encontrar um homem capaz de ajudar-nos e libertar-nos, que recompensa
devo prometer-lhe?" Tibério disse: "Que sem dúvida alguma terá em suas mãos a metade
do império.
Então Velosiano partiu imediatamente, subiu no barco, levantou âncora e fez-se ao mar.
A viagem marítima durou oito dias, em cujo prazo chegou a Jerusalém. Imediatamente
citou alguns dos judeus para que se apresentassem diante dele e ordenou uma diligente
investigação sobre o que havia sido feito com Jesus Cristo.
Então José de Arimatéia e Nicodemus apresentaram-se simultaneamente. Este último
disse: "Eu tive ocasião de vê-lo e estou seguro de que Ele é o salvador do mundo", José, por
sua vez, disse-lhe: "Eu baixei-O da cruz e coloquei-O num sepulcro novo, escavado na
rocha. Razão pela qual os judeus levaram-me preso sexta-feira à tarde. E no Sabat seguinte,
enquanto estava orando, a casa ficou suspensa pelos seus quatro ângulos e vi Nosso Senhor
Jesus Cristo como um relâmpago e luz, e, consternado, caí por terra. E ouvi uma voz que
me dizia: "Olhai-me, pois eu sou Jesus, aquele cujo corpo tu sepultaste em teu próprio
sepulcro'. Eu lhe disse: "Mostra-me o sepulcro onde eu O coloquei'. Então Jesus tomou-me
pela mão com sua direita e levou-me ao lugar onde eu O havia sepultado."
Veio também uma mulher chamada Verônica e disse-lhe: "Eu, de minha parte, toquei-
lhe a fímbria das vestes no meio da multidão, pois fazia já doze anos que padecia de
hemorragias, e no mesmo instante ele me curou".
Então Velosiano disse a Pilatos: "E tu, ímpio e cruel, por que mataste o Filho de Deus"?
Mas ele respondeu: "Acontece que o seu povo e seus pontífices Anás e Caifás mo
entregaram." E Velosiano respondeu: "Ímpio e desalmado, és digno de uma pena cruel". E
com isto mandou-o de volta à prisão.
Finalmente, Velosiano pôs-se a procurar a pintura da face do Senhor. Disseram-lhe
todos os presentes: "Certa mulher chamada Verônica tem a face do Senhor em sua casa".
Imediatamente ordenou que ela fosse levada diante dele e disse-lhe: "Tu tens em casa a face
do Senhor"? Mas ela disse que não. Então Velosiano ordenou que a torturassem até que ela
mostrasse a face do Senhor. finalmente, sem outro remédio, ela disse: "Eu a tenho, meu
senhor, envolta em um pano limpo e todos os dias rendo-lhe homenagem". Velosiano disse:
"Dize-me onde está". Ela então mostrou-lhe a face do Senhor. Velosiano, no momento em
que a viu, prostrou-se por terra; em seguida tomou-a em suas mãos com o coração aberto e
uma límpida fé e envolveu-a num lenço de ouro e assim mesmo colocou-a num estojo que
selou com seu dedo. Depois formulou um juramento nos seguintes termos: "Vive o Senhor
Deus e pela saúde de César; nenhum homem sobre a superfície da terra a verás mais até que
eu veja o rosto do meu senhor Tibério".
Depois de haver dito estas palavras, os nobres mais proeminentes de Jerusalém pegaram
Pilatos para levá-lo até o porto. Velosiano, por sua vez, pegou a face do Senhor com todos
os seus discípulos e todos os seus tributos e no mesmo dia fizeram-se todos ao mar.
Esta Verônica deixou todos os seus bens por amor a Cristo e seguiu Velosiano. Este
disse-lhe: "Mulher, que queres, que buscas"? Ela respondeu: "Eu busco a face do Nosso
Senhor Jesus Cristo, que me iluminou, não por meus méritos, senão por sua santa piedade.
Devolve-me a face de meu Senhor Jesus Cristo, pois estou morrendo por este piedoso
anseio. E se não me devolveres, não a perderei de vista até ver onde irás pô-la; e saiba que
eu, miserável como ninguém, servi-lo-ei todos os dias da minha vida, pois estou persuadida
de que meu Redentor em pessoa vive para sempre".
Então Velosiano mandou que Verônica fosse levada consigo até a embarcação. E,
levantando âncora, empreendeu a navegação em nome do Senhor e todos fizeram-se ao
mar. Mas Tito e Vespasiano subiram até a Judéia para vingar todas as nações daquela terra.
E, passados os dias, Velosiano chegou a Roma e deixou sua embarcação no rio chamado
Tibre, entrando em seguida na cidade. Imediatamente enviou seu mensageiro a Tibério,
para que ele tomasse conhecimento de sua feliz chegada.
Quando o imperador ouviu o mensageiro de Velosiano, alegrou-se imensamente e
ordenou que visse ter à sua presença. Assim que chegou, falou-lhe: "Velosiano, como foi a
viagem e o que encontraste na terra da Judéia sobre Cristo e seus discípulos? Aponta-me,
rogo-te, aquele que irá curar-me de minha doença, de maneira em que fique limpo desta
lepra que tenho em cima de meu corpo, e no mesmo momento entregarei a ti e a ele todo o
meu império".
E Velosiano disse: "Senhor meu imperador, encontrei na Judéia teus servos Tito e
Vespasiano, tementes a Deus, os quais viram-se limpos de todas as suas chagas e doenças.
Averigüei também que Tito fez pendurar todos os reis e chefes da Judéia: Anás e Caifás
foram lapidados, Arquelao matou-se com sua própria lança, e a Pilatos deixei-o preso em
Damasco, encerrado na prisão, sob segura vigilância. Apesar de tudo, fiz investigações
sobre Jesus, a quem os judeus barbaramente atacaram, armados de espadas e paus e depois
crucificaram; Ele havia vindo para libertar-nos e iluminar-nos, e eles O penduraram numa
cruz. E José de Arimatéia e Nicodemus levaram uma mistura de mirra e aloé, numa
quantidade de umas cem libras, para ungir o corpo de Cristo; eles O baixaram da cruz e o
colocaram num sepulcro novo. Mas ao terceiro dia com toda a certeza ressuscitou de entre
os mortos e deixou-se ver por seus discípulos com o mesmo corpo com o qual havia
nascido. Finalmente, ao final de quarenta dias, viram-no subir aos céus. Além disso, Jesus
fez muitos outros milagres antes e depois da sua paixão. O primeiro foi transformar a água
em vinho; depois ressuscitou os mortos, limpou os leprosos, deu visão aos cegos, curou os
entrevados, exorcizou os demônios, deu audição aos surdos e fala aos mudos; a Lázaro,
morto já havia quatro dias, ressuscitou-o do sepulcro; Verônica, que vinha sofrendo de
hemorragias durante doze anos, curou-se somente ao tocar-lhe as vestes.
"Então agradou ao Senhor nos céus que aquele Filho de Deus, enviado a este mundo
como o primogênito a ser morto na terra, enviasse um anjo seu, e enviou Tito e Vespasiano,
aos quais conheci nesse mesmo lugar onde está o teu trono. E agradou ao Senhor onipotente
que partissem para a Judéia e Jerusalém e que prendessem os teus súditos e os submetessem
a um julgamento parecido com aquele ao qual submeteram Jesus quando O prenderam e O
amarraram.
"E depois Vespasiano disse: "Que havemos de fazer com os remanescentes'? Tito
respondeu: "Eles dependuraram Nosso Senhor em um madeiro verde e O feriram com uma
lança; penduremo-los da mesma forma, nós a eles, numa madeira seca e perfuremos seus
corpos com uma lança'. E assim fizeram. Então Vespasiano disse: "E que haveremos de
fazer dos remanescentes'? Tito respondeu: "Eles pegaram a túnica de Nosso Senhor Jesus
Cristo e dela fizeram quatro partes; peguemos, nós também, a eles e dividimo-los em quatro
partes: uma para ti, outra para mim, outra para teus homens e uma última para meus servos'.
E assim fizeram. E Vespasiano disse: "Dos remanescentes, que vamos haveremos de fazer'?
Tito respondeu: "Aqueles judeus venderam Nosso Senhor por trinta moedas de prata:
vendamos, então, nós a trinta deles por uma só moeda'. Depois prenderam Pilatos e o
entregaram a mim; meti-o numa prisão em Damasco para que fosse custodiado por quatro
pelotões de soldados, quatro de cada vez.
"Depois fizeram diligentes pesquisas para encontrar a face do Senhor, e encontraram
uma mulher, chamada Verônica, que possuía a mencionada efígie."
Então o imperador Tibério disse a Velosiano: "Como a conservas"? Este respondeu:
"Tenho-a envolta numa capa colocada num pano de ouro". Tibério disse: "Traze-a e
descobre diante dos meus olhos para que eu a adore sobre o chão, caindo por terra de
joelhos". Então Velosiano estendeu seu manto e o pano de ouro onde estava o lenço
gravado com a face do Senhor, e o imperador Tibério pôde vê-la. Este, no instante seguinte,
adorou a efígie do Senhor com o coração puro, e sua carne ficou limpa tal qual a de uma
criança. E todos os cegos, leprosos, coxos, mudos, surdos, e aleijados de várias doenças,
que estavam ali presentes, foram recuperando a saúde e ficaram sadios e limpos.
Porém o imperador Tibério, ajoelhado e com a cabeça baixa, considerando aquela frase:
"Bem-aventurado o ventre que Te gerou, os peitos que Te amamentaram", gemeu e disse ao
Senhor entre lágrimas: "Deus do céu e da terra, não permitas que eu peque, mas sim
confirma minha alma e meu corpo e coloca-os em teu reino, pois confio sempre no teu
nome: livra-me de todos os males assim como livraste os três meninos do forno de fogo
ardente".
Depois o imperador Tibério disse a Velosiano: "Velosiano, viste algum daqueles
homens que poderiam ter contemplado Cristo"? Velosiano respondeu: "Sim, eu O vi". O
imperador acrescentou: "E perguntaste como batizavam aos que acreditavam em Cristo"?
Então Velosiano disse: "Aqui, meu senhor, temos um dos discípulos do próprio Cristo".
Assim, então, mandou que chamassem Natan para que viesse à sua presença. E Natan veio
e batizou-o em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, amém. Depois o imperador
Tibério restabelecido já de todas as doenças, subiu ao seu trono e disse: "És Bendito,
Senhor onipotente e louvável, que me livraste do laço da morte e me limpaste de todas as
minhas iniqüidades, pois cometi, ó Senhor, muitos pecados na tua presença e não sou
digno de contemplar o teu rosto". Então o imperador Tibério foi completamente instruído
sobre todos os artigos da fé.
Que o mesmo Deus Onipotente, que é rei dos reis e senhor dos que dominam, proteja-
nos em sua fé, defenda-nos, livre-nos de todo o mal e perigo e, finalmente, digne-se levar-
nos até a vida eterna uma vez terminada a vida temporal. E que seja bendito por todos os séculos dos séculos. Amém.
Há, na literatura apócrifa, um ciclo chamado de Pilatos, com vários textos que falam da
descida de Cristo ao Inferno, da Ressurreição e dos fatos ocorridos na vida de Pilatos,
Herodes e Tibério depois da Crucificação. Todos foram escritos durante os séculos I e II,
mas podem ter sofrido acréscimo e mutilações.
RETRATO DE JESUS
CARTA DE LENTULUS PUBLIUS AO IMPERADOR TIBÉRIO CÉSAR.
Eis aqui, enfim, a resposta que com tanta ansiedade esperáveis. Ultimamente apareceu
na Judéia um homem de estranho poder, cujo verdadeiro nome é Jesus Cristo, mas a quem
o povo chama "O Grande Profeta" e, seus discípulos, "O Filho de Deus". Diariamente
contam-se dele grandes prodígios: ressuscita os mortos, cura todas as enfermidades e traz
assombrada toda Jerusalém com a sua extraordinária doutrina.
É um homem alto e de majestosa aparência; sua face, ao mesmo tempo severa e doce,
inspira respeito e amor a quem a vê. Seu cabelo é da cor do vinho e desce ondulado sobre
os ombros; é dividido ao meio, ao estilo nazareno. Sua fronte, pura e altiva, sua cútis pálida
e límpida; a boca e o nariz são perfeitos; a barba é abundante e da mesma cor dos cabelos;
as mãos, finas e compridas; os braços, de uma graça encantadora; os olhos azuis, plácidos e
brilhantes.
É grave, comedido e sóbrio em seus discursos. Repreendendo e condenando, é terrível;
instruindo e exortando, sua palavra é doce e acariciadora. Ninguém o viu rir, mas muitos o
têm visto chorar. Caminha com os pés descalços e a cabeça descoberta. Vendo-o à
distância, há quem o despreze, mas em sua presença não há quem não estremeça com
profundo respeito.
Quantos se acercam dele, dizem haver recebido enormes benefícios, mas há quem o
acuse de ser um perigo para Vossa Majestade, porque afirma publicamente que os reis e os
escravos são todos iguais perante Deus.
RETRATO DO SALVADOR
Tinha Jesus um rosto belíssimo e vivo; o cabelo era alourado, não muito volumoso e
ligeiramente ondulado; sobrancelhas negras e ligeiramente arqueadas. Seus olhos, da cor
de azeitona, brilhavam com uma expressão admirável. Seu nariz era reto, barba loura, não
muito comprida, os cabelos eram bem longos, pois nenhuma navalha num mão de homem
algum jamais tocaram-lhe a cabeça, à exceção de sua Mãe, na infância. Mantinha o
pescoço algo inclinado, de sorte que não apresentava ar de arrogância. De tez clara, seu
rosto não era redondo nem comprido, mas mais comprido que largo e ligeiramente corado,
como as faces de sua Mãe. A seriedade, a prudência e a serenidade irmanavam-se e
resplandeciam em seu semblante. Em uma palavra, era de todo parecido com sua Mãe.
CARTA DE PÔNCIO PILATOS AO IMPERADOR ROMANO
Pôncio Pilatos saúda o Imperador Tibério César.
Jesus Cristo, que te apresentei explicitamente nos meus últimos relatórios foi,
finalmente, entregue a um duro suplício a pedido do povo, cujas instigações segui por medo
e contra minha vontade. Um homem piedoso e austero como esse, não existiu nem existirá
jamais em época alguma. Mas a verdade é que houve um estranho empenho do povo para
conseguir a crucificação deste embaixador da Verdade, além de uma conspiração de todos
os escribas, chefes e anciãos, malgrado os avisos dos seus profetas, ou, como nós dizemos,
as sibilas. E enquanto estava dependurado na cruz apareceram sinais que sobrepujavam as
forças naturais e que pressagiavam, segundo o entendimento dos filósofos, a destruição de
todo o mundo. Seus discípulos ainda vivem e não desdizem o Mestre nem suas obras e nem
a pureza de sua vida; e continuam ainda fazendo muito bem em seu nome. Portanto, se não
fosse pelo temor de uma possível revolta entre o povo que já estava quase enfurecido,
talvez aquele insigne varão ainda pudesse estar entre os vivos. Atribui, pois, mais ao meu
senso de fidelidade para contigo do que ao meu próprio capricho, o fato de não haver
resistido com todas as minhas forças para que o sangue de um justo, isento de toda culpa,
mas vítima da malícia humana, fosse perversamente vendido e sofresse toda a paixão.
Aliás, como dizem os intérpretes de suas escritas, poupá-lo redundaria em sua própria
ruína. Adeus. O quinto dia das calendas de abril.
CARTA DE TIBÉRIO A PILATOS
O que se segue é a resposta de César Augusto a Pôncio Pilatos, governador da província
oriental. O próprio César acrescentou uma sentença de seu próprio punho e letra e enviou-a
pelo mensageiro Raab, ao qual confiou, ainda, dois mil soldados:
"Uma vez que tiveste a ousadia de condenar Jesus Nazareno à morte, de uma maneira
violenta e totalmente perversa e, antes mesmo de proclamar a sentença condenatória,
puseste-O nas mãos dos insaciáveis e furiosos judeus; uma vez que, além disso, não tiveste
compaixão deste justo, mas depois de ensangüentar o açoite e de submetê-lo a uma horrível
sentença e ao tormento da flagelação, entregaste-o, sem nenhuma culpa de sua parte, ao
suplício da crucificação, não sem antes haver aceitado presentes pela sua morte; uma vez
que, enfim, manifestaste compaixão com os lábios, mas O entregaste de coração a alguns
judeus sem lei; por tudo isto, serás tu próprio conduzido à minha presença, carregado de
correntes, para que apresentes tuas desculpas e prestes contas da vida que entregaste à
morte sem nenhum motivo. Mas, ai da tua dureza e da tua falta de vergonha! Desde que
este fato chegou aos meus ouvidos, estou sofrendo na alma e sinto que minhas entranhas se
espedaçam, pois veio a mim uma mulher, que se diz discípula d'Ele (Maria Madalena, de
quem segundo afirma, expulsou sete demônios) e testemunhou que Jesus operou
portentosas curas, fazendo com que cegos vissem, coxos pudessem andar, surdos pudessem
ouvir, leprosos fossem limpos, e que todas estas curas aconteceram apenas com a sua
palavra. Como concordaste que fosse crucificado sem nenhum motivo? Porque, se não
querias aceitá-lo como Deus, deverias, pelo menos, ter-te compadecido d'Ele como médico
que era. Até o próprio relatório que me chegou de tua parte está reclamando o teu castigo,
já que nele afirmas que Aquele era superior a todos os deuses venerados por nós. Que se
passou para que o entregasses à morte? Saibas, pois, que, assim como tu O condenaste
injustamente e O mandaste matar, da mesma maneira eu, com todo o direito, farei justiça
contigo; e não somente contigo, mas também com todos os teus conselheiros e cúmplices
dos quais recebeste o suborno da morte."
Então Tibério César entregou a carta aos emissários e, juntamente com ela, a sentença
na qual ordenava por escrito que todo o povo dos judeus passasse pelo fio da espada e que
Pilatos fosse trazido como réu até Roma, juntamente com os principais dentre os judeus,
aqueles que à época eram governadores: Arquelao, filho do odiadíssimo Herodes, e seu
cúmplice Filipo; o pontífice Caifás e Anás, seu sogro, e todos os demais judeus
responsáveis.
Assim, pois, Rachaab marchou com os soldados e fez como lhe haviam ordenado,
passando pela espada todos os varões dentre os judeus, enquanto que as suas impuras
mulheres ficavam expostas à violação dos pagãos, o que fez brotar uma ralé abominável,
como, aliás, fora engendrado por Satã. Depois o emissário cuidou de Pilatos, de Arquelao e
Filipo, de Anás e Caifás e de todos os responsáveis dentre os judeus, e, carregando-os de
correntes, pôs-se com eles a caminho de Roma. Aconteceu que, ao passar por certa ilha
chamada Creta, Caifás perdeu a vida de uma maneira violenta e miserável. Então,
carregaram-no para sepultá-lo, mas nem sequer a terra dignou-se admiti-lo em seu seio, já
que o arremessava para fora. Quando os que ali estavam presenciaram esse fato, apanharam
pedras e arremessaram-nas sobre o cadáver, que foi desta forma enterrado. Os demais
chegaram até Roma.
Existia entre os reis da antigüidade o costume de livrar da condenação um réu de morte
que contemplasse o rosto real. César, então, deu as ordens necessárias para não se deixar
ver por Pilatos. Assim, pois, meteram-no numa caverna e ali o deixaram, conforme as
ordens do imperador.
Da mesma forma ordenou que Anás fosse envolto numa pele de boi, de modo que
quando o couro secasse ao sol ele fosse constringido e suas entranhas saíssem pela boca.
Assim, violentamente, perdeu ele sua miserável vida. Aos demais presos judeus executou-
os mandando passá-los pelo fio da espada. Mas a Arquelao, o filho do odiadíssimo
Herodes, e a seu cúmplice Filipo, condenou-os ao suplício da empalação.
Certo dia o imperador saiu de casa para uma caçada e ia em perseguição a uma gazela,
quando esta parou precisamente em frente à boca da caverna onde estava Pilatos. Já
próximo da execução, Pilatos tentou fixar seus olhos em César, mas não o conseguiu
porque a gazela postou-se na frente dele. César então disparou uma flecha, visando o
animal, mas o projétil atravessou a entrada da caverna e matou Pilatos. Todos aqueles que
crêem ser Cristo o verdadeiro Deus e nosso Salvador, glorificai-O e engrandecei-O, pois a
Ele pertencem a bem-aventurança, a honra e a adoração junto ao seu Pai no princípio e seu
Espírito consubstancial, agora e sempre e por todos os séculos dos séculos. Amém.
RELATÓRIO DE PILATOS ENVIADO A CÉSAR AUGUSTO
Naqueles dias que se seguiram à crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao tempo de
Pôncio Pilatos, governador da Palestina e da Fenícia, estas memórias foram compostas em
Jerusalém e referem-se ao que os judeus fizeram contra o Senhor. Pilatos, então juntamente
com a sua correspondência particular, enviou este relatório a César:
"Ao excelentíssimo, piedosíssimo, diviníssimo e mui terrível César Augusto, o
governador da província oriental, Pilatos.
"Excelência: O relatório que lhe farei procede do fato de sentir-me coibido pelo temor e
pelo tremor. Pois já sabeis que nesta província que governa, única entre as cidade quanto ao
nome de Jerusalém, o povo judeu em massa entregou-me um homem chamado Jesus,
acusando-o de muitos crimes que não puderam demonstrar com suficientes razões. Havia
entre eles uma facção sua inimiga porque Jesus dizia-lhes que o Sabat não era dia de
descanso nem de festa para ser guardado. Ele, efetivamente, operou muitas curas nesse dia:
devolveu a visão a cegos e a faculdade de andar a coxos; ressuscitou os mortos; limpou os
leprosos; curou os paralíticos, incapazes de ter impulsos corporais ou ereção de nervos, mas
somente voz e articulações, dando-lhes forças para andar e correr. E extirpava qualquer
enfermidade somente com o uso de sua palavra. Outra nova ação mais assombrosa,
desconhecida entre nossos deuses: ressuscitou um morto de quatro dias somente dirigindo-
lhe a palavra; e é de se notar que o morto já tinha o sangue coagulado e estava putrefato
por causa dos vermes que saíam de seu corpo e exalava um mal cheiro de cão. Vendo-o,
então, imóvel como estava no sepulcro, ordenou que se levantasse e corresse; e ele, como
se não tivesse um mínimo de cadáver, mas fosse como um esposo que sai do quarto
nupcial, assim saiu do sepulcro, transbordante de perfume.
"E a alguns estrangeiros, totalmente endemoniados, que moravam nos desertos e
comiam suas próprias carnes, conduzindo-se como bestas e répteis, também a eles tornou-
os honrados cidadãos, fê-los prudentes com a sua palavra e preparou-os para serem sábios,
poderosos e gloriosos e para confraternizarem com todos os que odiavam os espíritos
imundos e perniciosos que habitavam neles anteriormente, os quais arremessou nas
profundezas do mar.
"Alem disso, havia outro que tinha a mão seca. Melhor dizendo, não somente a mão,
mas toda a metade do seu corpo estava petrificada, de maneira que não tinha nem a figura
de um homem nem a dilatação de músculos. Também este foi curado com somente uma
palavra e ficou sadio.
"Havia uma outra mulher com problemas hemorrágicos, cujas articulações e veias
estavam esgotadas pelo fluxo de sangue, a tal ponto que já nem sequer se podia dizer que
tinha um corpo humano. Mais se assemelhava a um cadáver. Havia ficado até sem voz. Tal
era a gravidade de seu estado que nenhum médico do território encontrou uma forma de
curá-la ou sequer de lhe dar uma esperança de vida. Certa vez Jesus passava por ali em
segredo e a mulher, retirando forças da sombra dele, tocou, por detrás, a fímbria de sua
túnica. Imediatamente sentiu uma força que preenchia seus vazios e, como se nunca tivesse
estado doente, começou a correr agilmente em direção à sua cidade, Cafarnaum,
caminhando de tal forma que quase igualava qualquer pessoa que percorresse de uma só
vez seis jornadas.
"Isto, que acabo de relatar com toda a ponderação, Jesus fez num Sabat. Além disso,
operou outros milagres maiores do que estes, de maneira que chego a pensar que suas
façanhas são superiores àquelas que fazem os deuses venerados por nós.
"Este, pois, é Aquele a quem Herodes, e Arquelao, e Filipo, Anás e Caifás, entregaram-
me em conivência com todo o povo, pressionando-me para que eu o julgasse. E assim,
embora sem haver constatado de sua parte nenhum tipo de delito ou má ação, mandei que O
crucificassem depois de submetê-lo à flagelação.
"E enquanto O crucificavam sobrevieram algumas trevas que cobriam toda a terra,
deixando o sol obscurecido em pleno meio-dia e fazendo aparecer as estrelas, as quais não
resplandeciam; a luz parou de brilhar, como se tudo estivesse tingido de sangue, e o mundo
dos infernos foi absorvido; e, com a queda dos infernos, até mesmo o que era chamado de
santuário desapareceu da vista dos próprios judeus. Finalmente, pelo eco repetido dos
trovões, produziu-se uma fenda na terra.
"E quando ainda o pânico se fazia sentir apareceram alguns mortos que havia
ressuscitado, como testemunharam os próprios judeus, e disseram ser Abraão, Isaac, Jacó,
os doze patriarcas, Moisés e Job, e, como eles diziam, os primeiros dos que haviam falecido
três mil e quinhentos anos antes. E muitíssimos deles, que eu também pude ver que
apareceram fisicamente, lamentavam-se por sua vez, por causa dos judeus, pela
prevaricação que estavam cometendo, pela sua perdição e pela perdição de sua lei.
"O medo do terremoto durou desde a sexta até a nona hora da sexta-feira. E, ao chegar a
tarde do primeiro dia da semana, ouviu-se um eco vindo do céu, que por sua vez adquiria
um resplendor sete vezes mais vivo que todos os dias. Na terceira hora da noite chegou a
aparecer o sol, brilhando mais que nunca e embelezando todo o firmamento. E da mesma
forma que no inverno os relâmpagos sobrevêm de repente, assim também apareceram
subitamente alguns varões, excelsos pelas suas vestes e pela sua glória, que tinham vozes
semelhantes ao soar de um enorme trovão, dizendo: "Jesus, o que foi crucificado acaba de
ressuscitar. Levantai do abismo aqueles que estão presos nas profundezas do inferno". E a
fenda da terra era tamanha que parecia não ter fundo, já que deixava ver os próprios
fundamentos da terra, entre os gritos daqueles que estavam no céu e passeavam fisicamente
no meio dos mortos que acabavam de ressuscitar. E Aquele que deu vida aos mortos e
acorrentou o inferno dizia: "Dai este aviso aos meus discípulos: Ele segue à vossa frente até
a Galiléia; ali poderão vê-lo'."
"Durante toda aquela noite a luz não deixou de brilhar. E muitos dos judeus pereceram
absorvidos pela fenda da terra, de maneira que no dia seguinte grande parte dos que haviam
estado contra Jesus já não estavam ali. Outros viram aparições de ressuscitados que nenhum
de nós havia visto. E em Jerusalém não ficou nem uma só sinagoga dos judeus, pois todas
desapareceram naquele terremoto. Assim, estando fora de mim devido àquele pânico e
tolhido ao extremo por um horrível tremor, fiz para vossa excelência o relatório escrito do
que meus olhos viram naqueles momentos. E, além disso, rememorando o que os judeus
fizeram contra Jesus, remeto este relatório à vossa divindade. Oh Senhor!"
CORRESPONDÊNCIA ENTRE PÔNCIO PILATOS E HERODES
CARTA DE PILATOS A HERODES
Pilatos, governador de Jerusalém, saúda o tetrarca Herodes.
Não foi nada bom o que fiz sob a tua orientação, naquele dia em que os judeus
apresentaram-me Jesus, o chamado Cristo. Pois da mesma maneira que foi crucificado,
assim também ressuscitou no terceiro dia de entre os mortos, como alguns acabam de
anunciar-me dentre eles o centurião. Eu próprio decidi enviar uma expedição até a Galiléia
e todos testemunham havê-lo visto em seus próprio corpo conservando o mesmo semblante.
Chegou a deixar-se ver por mais de quinhentas pessoas, com a mesma voz e com idênticos
ensinamentos. Estes indivíduos têm andado por aí dando testemunho disso e, longe de
vacilar, têm pregado a sua ressurreição como um extraordinário fenômeno e anunciado um
reino eterno, a ponto de os céus e a terra parecerem alegrar-se com seus santos
ensinamentos.
E saberás que Procla, minha mulher, dando crédito às aparições que teve d'Ele, quando
eu estava quase mandando crucificá-lo devido à tua instigação, deixou-me sozinho e foi-se
com dez soldados e Longinos, o fiel centurião, para contemplar o seu semblante, como se
tratasse de um grande espetáculo. E viram-no sentado numa plantação, rodeado de grande
turba e ensinando as magnificências do Pai; de forma que estavam todos fora de si e cheios
de admiração, pensando se aquele que havia padecido o tormento da crucificação havia
ressuscitado de entre os mortos.
E, enquanto todos O estavam observando com grande atenção, Ele divisou Procla e
Longinos e dirigiu-se até eles nos seguintes termos: "Ainda não acreditais em mim? Por
ventura não foste tu que fizeste a guarda durante a minha paixão e vigiaste meu sepulcro?
E tu, mulher, não é aquela que enviaste ao teu esposo uma carta sobre mim? [...] o
testamento de Deus que o Pai dispôs. Então, eu que fui crucificado e sofri muitas coisas,
vivificarei através da minha morte, tão vossa conhecida, toda a carne que pareceu. Agora,
então, saberás que todo aquele que acreditou em Deus Pai e em mim não perecerá, pois eu
fiz desaparecer as dores da morte e atravessei o dragão de muitas cabeças. E, por ocasião da
minha futura vinda, cada um ressuscitará com o mesmo corpo e alma que tem agora e
abençoará o meu Pai, o Pai daquele que foi crucificado na época de Pôncio Pilatos".
Ao ouvir dizer tais coisas, tanto minha mulher, Procla, como o centurião que teve a seu
encargo a execução de Jesus, bem como os soldados que haviam ido em sua companhia,
puseram-se a chorar, cheios de aflição, e vieram até minha presença contar-me essas coisas.
Eu, de minha parte, depois de ouvi-las, relatei-as aos meus grandes comissários e
companheiros de milícia; estes, cheios de aflição e ponderando o mal que haviam feito
contra Jesus, puseram-se a chorar; e mesmo assim eu, compartilhando a dor da minha
mulher, estou entregue ao jejum e durmo sobre a terra. Nesse instante veio o Senhor e
levantou-nos do chão a mim e à minha mulher; então fixei meus olhos nEle e vi que seu
corpo ainda conservava as equimoses. E Ele colocou suas mãos sobre os meus ombros,
dizendo: "Bem-aventurado chamar-te-ão todas as gerações e povos, porque na tua época
morreu e ressuscitou o Filho do Homem e agora subirá aos céus e sentar-se-á acima de
tudo. E todas as tribos da terra dar-se-ão conta de que eu sou aquele que julgará os vivos e
os mortos no último dia".
CARTA DE HERODES A PILATOS
Herodes, tetrarca dos galileus, saúda o governador dos judeus, Pôncio Pilatos.
Estou tomado de uma grande aflição, conforme dizem as Sagradas Escrituras, pelas
coisas que passarei a relatar-te, assim como penso que tu, de tua parte, afligir-te-ás ao lê-
las. Saiba que minha filha Herodíades, a quem eu amo ardentemente, faleceu quando
brincava junto à água coberta de gelo e ele quebrou-se. Seu corpo afundou e a cabeça,
decepada pelo gelo, ficou na superfície. Então sua mãe a recolheu, pois o restante do corpo
perdeu-se nas águas. Agora, minha mulher, chorando, aperta a cabeça nos joelhos, e toda a
minha casa está entregue a uma dor sem fim.
Eu, de minha parte, encontro-me rodeado de muitos males, desde o momento em que
soube que tu havias desprezado a Jesus, e quero pôr-me a caminho somente para vê-lo,
adorá-lo e escutar alguma palavra de Seus lábios, pois pratiquei muitas maldades contra
Ele e contra João Batista; certamente estou recebendo com toda a justiça o que mereço, pois
meu pai derramou sobre a terra muito sangue de filhos alheios por causa de Jesus, e eu, por
minha vez, degolei João, aquele que O batizou.
Justos são os desígnios de Deus, porque cada qual recebe a sua recompensa de acordo
com os seus desejos. Assim, pois, já que te é dado ver Jesus novamente, luta agora por mim
e diz-lhe uma palavra a meu favor; porque a vós, os gentios, vos foi entregue o Reino,
conforme o que disseram Cristo e os profetas.
Asbonius, meu filho, está na agonia da hora da morte, preso a uma doença extenuante, já
faz alguns dias, Eu, de minha parte, encontro-me gravemente doente, submetido ao
tormento da hidropisia, ao ponto de saírem vermes da minha boca. Minha mulher chegou
até a perder o olho esquerdo devido à desgraça que se abateu sobre minha casa. Justos são
os desígnios de Deus, porquanto ultrajamos o Olho da Retidão. Não há paz para os que
cometem maldades, disse o Senhor. Pois grande aflição abateu-se contra os sacerdotes e os
escribas da lei. A morte chegará depressa a eles e ao senado dos filhos de Israel, pois
iniquamente puseram suas mãos sobre o Justo. Tudo isto veio a cumprir-se na consumação
dos séculos; e assim, as nações gentias receberão como herança o Reino de Deus, enquanto
que os filhos da luz serão arremessados fora por não terem observado o que fora pregado
com relação ao Senhor e ao seu Filho. Cinja, pois, teus rins, e abraça a Justiça, tu e tua
mulher, lembrando Jesus dia e noite; e o Reino pertencerá a vós, os gentios, pois que os
escolhidos rejeitaram o íntegro. E se é que há lugar para minhas súplicas, ó Pilatos, visto
que estivemos no poder ao mesmo tempo, dá-nos sepultura, a mim e aos da minha casa,
uma vez que queremos ser sepultados por ti e não pelos sacerdotes, aos quais em breve os
espera o Juízo, segundo as Escrituras, na vinda de Jesus Cristo. Adeus a ti e a Procla, tua
mulher.
Enviei-te os brincos de minha filha e meu próprio anel, para que sejam uma memória de
minha morte, pois já sinto os vermes aflorarem-se-me em todo meu corpo, pois que estou
recebendo o castigo temporal; mas tenho mais medo do julgamento que advirá, pois em
ambos estarei diante das obras do Deus vivo. Mas esse julgamento, que é temporal, é só
durante um período, mas o outro, será eterno.
Fim da Carta de Herodes a Pilatos, o Governador.
JULGAMENTO E CONDENAÇÃO DE PILATOS
A carta chegou a Roma e foi lida a César na presença de não poucas pessoas. E todas
ficaram atônitas ao ouvir que, por causa do delito de Pilatos, as trevas e o terremoto haviam
afetado toda a terra. E César, encolerizado, enviou soldados para que prendessem Pilatos.
Conduzindo Pilatos a Roma, e tendo César sido inteirado de sua chegada, sentou-se o
imperador no templo dos deuses, à frente do senado, acompanhado de todos os militares e
da multidão que integrava suas forças, e deu ordens para que Pilatos se aproximasse e
ficasse em pé. E a seguir disse-lhe: "Por que tiveste a ousadia de fazer tais coisas, monstro
de impiedade, depois de haveres visto prodígios como os que fazia aquele homem? Por
teres te atrevido a cometer tal vilania, causaste a ruína do universo".
Mas Pilatos replicou: "Oh imperador!, eu não sou culpado disto; os incitadores e
responsáveis são os judeus". E perguntou César: "E quem são eles?" Pilatos respondeu:
"Herodes, Arquelao, Filipo, Anás. Caifás e toda a turba do judeus." César retrucou: "E por
que tu te curvaste ao propósito deles?" Pilatos disse: "Sua nação é revoltada e insubmissa;
não se submete ao vosso império. Ao que César replicou: "Em lugar de tê-lo entregue,
deverias tê-lo colocado em lugar seguro e O enviado a mim, e não deixar que eles te
persuadissem a crucificar um ser notável como este, que era justo e que fazia prodígios tão
bons como os que fazias constar de teu relatório. Pois sinais como estes permitem conhecer
que Jesus era o Cristo, o rei dos judeus".
Mal César acabara de mencionar o nome de Cristo e toda a caterva de deuses
desmoronou e ficou reduzida a uma nuvem de pó que ocupou o recinto no qual César
estava sentado na companhia do senado. E o povo que estava na presença de César ficou
amedrontado ao ouvir pronunciar o nome e presenciar a queda daqueles deuses, e, aterrado
pelo medo, correu para casa, cheio de admiração pelo que acabava de presenciar. Então
César ordenou que Pilatos fosse submetido a uma severa vigilância, de forma que ele
pudesse conhecer a verdade sobre o que se relacionava a Jesus.
No dia seguinte César sentou-se no Capitólio juntamente com o senado em peso e
propôs-se a interrogar Pilatos novamente. Então César disse: "Dize a verdade, monstro de
impiedade, pois, pela ímpia ação que levantaste a cabo contra Jesus, tua má conduta veio
manifestar-se até aqui, com os deuses fazendo-se em pedaços. Dize-me, então, quem é
aquele crucificado, já que seu nome trouxe a perdição até aos nossos deuses?" Pilatos
respondeu: "Efetivamente, tudo o que d'Ele se fala é verdadeiro; eu próprio, ao ver suas
obras, cheguei a persuadir-me de que aquela notável pessoa era de uma categoria superior
aos deuses que nós veneramos". Então César perguntou: "Como, então, tiveste a ousadia de
fazer aquilo contra Ele, conhecendo-O como O conhecias? Ou o fato é que tramavas algum
mal contra o meu império?" Mas Pilatos respondeu: "Fiz isto pela iniqüidade e pela
sublevação desses judeus sem lei e sem Deus".
Então, encolerizado, César pôs-se a deliberar com todo o senado e com seu exército. E
mandou escrever um édito contra os judeus nos seguintes termos: "A Liciano, governador
da província oriental, saúde. Chegou ao meu conhecimento o ato atrevido e ilegal que teve
lugar em nosso tempo por parte dos judeus que habitam Jerusalém e as cidades
circunvizinhas, até o ponto de terem obrigado Pilatos a crucificar um certo deus chamado
Jesus, crime tão horrendo que por ele o universo, envolto em trevas, quase ia sendo
arrastado à ruína. Então, faz cair cobre eles tuas forças, e declara a escravidão por meio do
presente édito. Sê obediente à ordem de atacá-los e esparramá-los pelo mundo; reduz à
servidão os judeus em todas as nações, e, depois de expulsar de toda a Judéia até a relíquia
mais insignificante de sua raça, faz com que nada deles se conserve, cheios como estão de
maldade".
Tendo este édito chegado ao Oriente, Liciano obedeceu ao terrível teor da ordem e
exterminou a nação inteira dos judeus; e os que ficaram na Judéia, lançou-os à diáspora das
nações para serem escravos, de maneira que chegou ao conhecimento de César o que
Liciano havia feito contra os judeus no Oriente, o que o agradou.
E César dispôs-se novamente a julgar Pilatos. Depois mandou que um chefe chamado
Álbio lhe cortasse a cabeça dizendo: "Da mesma maneira que este levantou a sua mão
contra aquele homem justo chamado Cristo, de maneira semelhante este também cairá sem
remissão".
Mas Pilatos, quando chegou ao lugar indicado, pôs-se a orar em silêncio desta forma:
"Senhor, não me faças perder na companhia dos perversos hebreus, pois eu não teria
levantado a minha mão contra Ti não fosse o povo dos judeus iníquos, que se rebelaram
contra Ti; mas sabes que agi sem saber. Assim, então, não me faças perder por este pecado,
porém sê benigno comigo, ó Senhor, e com Tua serva Procla, que está ao meu lado nesta
hora da minha morte e a quem dignaste designar como profetisa da Tua futura crucificação.
Não condenes também a ela pelo meu pecado, mas perdoa-nos e conta-nos dentre os Teus
escolhidos".
E eis que, após Pilatos terminar sua oração, sobreveio uma voz que dizia: "Bem-
aventurado chamar-te-ão as gerações e as pátrias das gentes, porque no teu tempo
cumpriram-se todas estas coisas que tinham sido ditas pelos profetas sobre mim; e haverás
de ser testemunha por ocasião da minha segunda vinda, quando irás julgar as doze tribos de
Israel e aqueles que não reconheceram meu nome". E o executor lançou por terra a cabeça
de Pilatos, e eis que um anjo do Senhor recebeu-a. E Procla, sua mulher, transbordando de
alegria ao ver o anjo que vinha para receber a cabeça dele, entregou também seu espírito no
mesmo instante, e foi sepultada juntamente com seu marido.
MORTE DE PILATOS, O QUE CONDENOU JESUS
Tibério César, imperador dos romanos, encontrando-se acometido de uma grave doença
e tendo-se inteirado de que em Jerusalém havia um médico chamado Jesus, o qual curava
todas as doenças somente com a sua palavra, ignorando que os judeus e Pilatos Lhe
haviam dado a morte, expediu a seguinte ordem a Volusiano, alguém muito chegado a ele:
"Vai o mais cedo possível até o outro lado do mar e diz a Pilatos, meu servidor e amigo,
que me envie este médico para que me restitua o estado de saúde no qual me encontrava
antes".
Volusiano, ouvindo a ordem do imperador, partiu no mesmo instante e chegou até
Pilatos, de acordo com a ordem recebida. E contou ao mencionado Pilatos, o que havia sido
encarregado por Tibério César, dizendo: "Tibério César, imperador dos romanos, teu
senhor, ao tomar conhecimento de que se encontra nesta cidade um médico capaz de curar
todas as doenças somente com a sua palavra, roga-te encarecidamente que o envies para
que o cure de seu mal. Quando Pilatos ouviu isto, ficou muito atemorizado, descobrindo
que O havia feito matar por inveja. Então, assim respondeu Pilatos ao citado mensageiro:
"Aquele homem era um malfeitor e levava todo o povo atrás de si. Motivo pelo qual, depois
de promover um conselho entre os sábios da cidade, mandei que fosse crucificado".
Quando o mensageiro em questão voltava para sua casa, encontrou-se com uma certa
mulher chamada Verônica, que havia conhecido Jesus, e disse-lhe: "Mulher, havia um certo
médico residente nesta cidade, que somente com a sua palavra curava os doentes, por que
os judeus o mataram?" Mas ela começou a chorar, dizendo: "Ai de mim! O senhor, era o
meu Deus e me Senhor, a quem Pilatos por inveja entregou, condenou e mandou
crucificar".
Então ele, embargado por uma dor profunda, disse: "Sinto-o enormemente, porque não
vou poder cumprir a missão que meu senhor me confiou". Verônica disse-lhe: "Quando
meu Senhor ia pregar, eu me sentia mal, já que ficava privada da sua presença; então que
me fizessem um retrato para que, enquanto eu não pudesse desfrutar sua companhia,
pudesse ao menos consolar-me com a figura da sua imagem. E, estando eu a caminho para
levar o lenço ao pintor para que O desenhasse, meu Senhor veio ao meu encontro e
perguntou-me onde ia. Quando manifestei-lhe meu propósito, pediu-me o lenço e mo
devolveu com a imagem de seu venerável rosto. Portanto, se teu senhor olhar sua imagem
com devoção, ver-se-á imediatamente agraciado com o benefício da cura". Então ele disse-
lhe: "Um tal retrato pode ser adquirido com ouro ou com prata?" Ela respondeu: "Não, tão
somente com um piedoso afeto de devoção. Irei contigo e levarei a imagem para que César
a veja; depois voltarei".
Então, veio Volusiano a Roma em companhia de Verônica e disse ao imperador Tibério:
"Aquele Jesus, a quem tu já ha algum tempo vens desejando ver, foi entregue por Pilatos e
pelos judeus a uma morte injusta e por inveja foi pregado no patíbulo da cruz. Porém veio
em minha companhia certa senhora que traz consigo um retrato do próprio Jesus; se tu o
olhares com devoção, obterás de imediato o benefício da tua cura". Então César fez com
que o caminho fosse atapetado com panos de seda e ordenou que a imagem lhe fosse
apresentada. E, no instante em que a olhou, recobrou sua antiga saúde.
Em conseqüência, Pôncio Pilatos foi detido por ordem de César e trazido a Roma.
Quando o imperador tomou conhecimento da sua chegada, sentiu-se dominado por uma
enorme fúria contra ele e ordenou que o levassem à sua presença. Deve-se esclarecer que
Pilatos havia trazido consigo a túnica de Jesus, feita de uma só peça, dádiva que levou à
presença do imperador. Assim que o viu, o imperador sentiu-se destituído de toda a sua ira,
levantou-se imediatamente diante dele e não ousou em dizer uma única palavra dura. E,
assim, ele, que na sua ausência parecia tão feroz e terrível, agora, na sua presença, estava
até certo ponto manso. Mas, assim que o despediu, começou a exaltar-se terrivelmente
contra ele, chamando-se a si mesmo, aos gritos, de miserável por não haver manifestado a
indignação de seu peito. E no mesmo instante fez com que o chamassem novamente,
jurando e declarando que era filho da morte e que não era lícito que ele vivesse sobre a
terra. Porém, quando o viu de novo, saudou-o imediatamente e sentiu-se destituído de novo
de toda a ferocidade de sua alma.
Todos, até ele próprio, estavam admirados com o fato de ele encolerizar-se na ausência
de Pilatos, enquanto que na sua presença não era capaz de dizer sequer uma palavra áspera.
Finalmente, por inspiração divina, ou talvez por conselho de algum cristão, mandou que o
despojassem daquela túnica. No mesmo instante recobrou sua antiga feracidade de alma
contra ele. Grandemente admirado com esse fato, o imperador ficou sabendo que aquela
túnica havia pertencido a Jesus. Então ordenou que atirassem Pilatos na cadeia, enquanto o
conselho de sábios deliberava o que deveria ser feito com ele. Poucos dias depois ditou-se a
sentença contra Pilatos para que fosse levado a uma morte extremamente infamante.
Quando isto chegou aos ouvidos de Pilatos, ele próprio suicidou-se com uma faca, e com
esta morte pôs fim à sua vida.
Ao tomar conhecimento do ocorrido, César disse: "Na verdade morreu
ignominiosamente, já que sua própria mão não o perdoou". Então amarraram-no em uma
enorme pedra e o atiraram nas profundezas do Tibre. Aconteceu, porém, que alguns
espíritos imundos e malignos, aproveitando-se daquele corpo nas suas próprias condições,
moviam-se naquelas águas e atraíram para elas raios e tempestades, trovões e granizo, até o
ponto de todos assustarem-se e sentirem um grande temor. Por causa disto os romanos
tiraram-no do rio Tibre e levaram-no ao som de galhofas até Viena e o arremessaram nas
profundezas do Ródano, já que Viena significa "Caminho para a Geena" (inferno), por ser
naquele tempo um lugar maldito. Mas também ali os espíritos maus apareceram, fazendo as
mesmas coisas, então a população, não suportando uma invasão tão grande de demônios,
atirou para longe aquele maldito fardo e diligenciou para que recebesse sepultura no
território de Lausane. Os habitantes desta região, sentindo-o excessivamente conturbados
pelas invasões, atiraram-no por sua vez longe deles, num poço rodeado de montanhas, lugar
que, se dermos crédito ao que algumas pessoas contam, dizem que ainda é agitado por
algumas maquinações diabólicas.
A SENTENÇA DE PILATOS
"Cópia da sentença dada por Pôncio Pilatos, governador da Judéia no ano 18 (sic) de
Tibério César, Imperador de Roma. Encontrada na cidade de Aquila, no reino de Nápoles.
Sentenciou Jesus Cristo, Filho de Deus e da Virgem Maria, à morte na cruz, no meio de
dois ladrões, no dia 25 de março. Achada milagrosamente dentro de uma belíssima pedra,
na qual estavam duas caixinhas: uma, de ferro, tinha dentro dela outra de finíssimo marfim,
onde estava a sentença, em letra hebraica, em pergaminho, do seguinte teor:
"No ano XVIII de Tibério César, imperador romano e de todo o mundo, Monarca
Invencível na Olimpíada c.xxi, na Clíade xxiv e na Criação do Mundo, segundo os números
e cálculos dos Hebreus, quatro vezes m.c.Ixxxvii, e da propagação do Império Romano
l.xxiii, da libertação da escravidão da Babilônia m.cc.xi, sendo Cônsules do Povo Romano
Lúcio Pisano e Maurício Pisarico; Procônsules Lúcio Balesma, público Governador da
Judéia, e Quinto Flávio, sob o regimento e Governo de Jerusalém, Governador gratíssimo
Pôncio Pilatos, regente da baixa Galiléia, e Herodes Antipas, Pontífices do Sumo Sacerdote
Anás, Alit Almael o Mago do Templo, Roboan Ancabel, Franchino Centurião, e Cônsules
Romanos e da Cidade de Jerusalém Quinto Cornélio Sublima e Sexto Pontílio Rufo; no dia
xxv do mês de Março. "EU, Pôncio Pilatos, aqui Presidente Romano dentro do Palácio da
Arquipresidência, julgo, condeno e sentencio à morte a Jesus chamado pela plebe Cristo
Nazareno, e de pátria Galiléia, homem sedicioso de Lei Mosaica, contrário ao grande
Imperador Tibério César; e determino, e pronuncio, pela presente, que sua morte seja na
cruz, e pregado com cravos como se usa com os réus, porque aqui congregando e juntando
muitos homens ricos e pobres não parou de causar tumultos por toda a Judéia, fazendo-se
filho de Deus e Rei de Jerusalém, ameaçando trazer a ruína para esta Cidade, e para seu
Sagrado Templo, negando o tributo a César, e tendo ainda tido o atrevimento de entrar com
palmas, em triunfo, e com parte da plebe, na Cidade de Jerusalém e no Sagrado Templo. E
ordeno que meu primeiro Centurião Quinto Cornélio leve publicamente Jesus Cristo pela
cidade, amarrado e açoitado, e que seja vestido de púrpura e coroado com alguns espinhos,
com a própria Cruz nos ombros para que seja exemplo a todos os malfeitores; e com ele
que sejam levados dois ladrões homicidas, e sairão pela Porta Sagrada, agora Antoniana, e
que leve Jesus ao monte público da Justiça chamado Calvário, onde crucificado e morto
fique o corpo na Cruz, como espetáculo para todos os malvados; e que sobre a Cruz seja
colocado o título em três idiomas, e em todos três (Hebraico, Grego e Latim) diga: IESUS
NAZAR. REX IUDAEORUM.
"Da mesma maneira, ordenamos que ninguém de qualquer estado ou qualificação
atreva-se temerariamente a impedir tal Justiça por mim ordenada, administrada e executada
com todo o rigor segundo os decretos e Leis Romanas e Hebréias, sob pena de rebelião ao
Império Romano Testemunhos da Sentença: pelas 12 tribos de Israel, Rabain Daniel,
Rabain seg.12, Joannin Bonicar, Barbasu, Sabi Potuculam. Pelos Fariseus, Búlio, Simeão,
Ronol, Rabini, Mondagul, Boncurfosu. Pelo Sumo Sacerdócio, Rabban, Nidos, Boncasado,
Notários desta publicação; pelos Hebreus, Nitanbarta; Pelo Julgamento, e pelo Presidente
de Roma Lúcio Sextilio, Amásio Chlio."
A VINGANÇA DO SALVADOR
Nos dias do imperador Tibério César, sendo Herodes tetrarca, sob o domínio de Pôncio
Pilatos, Cristo foi entregue pelos judeus e declarado inocente por Tibério.
Por aqueles dias, estava Tito de chefe de estado, sob as ordens de Tibério, na região de
Equitânia, em uma cidade da Líbia chamada Burgidalla. Sabe-se que Tito tinha uma chaga
na parte direita do nariz, originada, diz-se, por um câncer, que tornava seu rosto desfeito até
o olho.
Naquele tempo saiu da Judéia um homem chamado Natan, filho de Naum. Este era um
ismaelita que ia de região em região e de mar em mar, por todos os confins da terra. Natan
vinha como enviado da Judéia ao imperador Tibério, sendo portador de um tratado que
haviam feito com a cidade de Roma. Nota-se que Tibério estava doente, cheio de úlceras,
febres malignas e nove tipos de lepra.
Natan tinha a intenção de dirigir-se a Roma, mas soprou o vento do norte e mudou sua
rota, fazendo com que ele chegasse a um porto da Líbia. Tito, que viu a neve chegar, soube
que vinha da Judéia. E todos encheram-se de admiração e concordaram que nunca haviam
visto nenhuma embarcação chegar ali em semelhantes condições.
Então Tito fez com que o chefe da nave fosse chamado e perguntou-lhe quem era. Ele
respondeu: "Eu sou Natan, filho de Naum, de origem ismaelita, e vivo na Judéia sob o
domínio de Pôncio Pilatos. Agora sou enviado a Tibério, imperador romano, com o
objetivo de colocar em suas mãos um tratado proposto pela Judéia. Mas um forte vento
jogou-se sobre o mar, e eis-me aqui numa região para mim desconhecida".
E Tito disse: "Se porventura fores capaz de encontrar algum medicamento, seja de
misturas ou de ervas, que sirva para curar-me a ferida que, como vês, tenho no rosto, de
maneira que eu possa sarar e recuperar minha antiga saúde, cobrir-te-ia de favores".
Natan respondeu: "Senhor, eu, de minha parte, não sei nem conheço coisas semelhantes
a essas que me indicas. Não obstante, se estivesses estado há algum tempo em Jerusalém,
ali terias encontrado um profeta eleito, cujo nome era Emmanuel (pois Ele há de salvar o
povo dos seus pecados). Ele operou seu primeiro milagre em Canaã da Galiléia,
convertendo a água em vinho; e com sua palavra limpou os leprosos, fez o demônio fugir,
ressuscitou três mortos, libertou uma mulher surpreendida em adultério, condenada pelos
judeus a ser lapidada, e a uma outra mulher chamada Verônica, que sofria de hemorragias
desde os seus onze anos e que se aproximou dele por trás, tocando a fímbria de suas vestes,
curou-a também; e com cinco pães e dois peixes saciou a cinco mim homens, sem contar
mulheres e crianças, ficando doze cestos de vime de sobras. Todas estas e muitas outras
aconteceram antes de sua paixão. Depois de sua ressurreição vimo-lo com o mesmo corpo
que antes havia tido".
Então Tito disse: "Como ressuscitou de entre os mortos? Então Ele esteve morto'? Natan
respondeu: "Sem dúvida alguma ele morreu; foi dependurado numa cruz e depois morto
despendurado dela; esteve três dias no sepulcro; depois ressuscitou de entre os mortos e
baixou aos infernos, onde libertou os patriarcas, profetas e a todo humano com
descendência; depois apareceu aos discípulos e partilhou a refeição com eles; e, finalmente,
viram-no subir ao céu. De maneira que é verdade tudo o quanto venho dizendo-lhes. Eu
mesmo O vi com meus próprios olhos, bem como a casa inteira de Israel". Então Tito
exclamou: "Ai de ti, imperador Tibério, cheio de úlceras e cercado de lepra, por haveres
cometido um tal escândalo durante o teu reinado; por haveres promulgado algumas leis na
Judéia, terra natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, as quais serviram para prender o rei e
matar o governador dos povos, sem que O fizessem vir até nós para que limpasse de ti a
lepra e a mim me curasse de minha doença. Porque se isso houvesse acontecido diante de
meus olhos, com minhas próprias mãos teria dado a morte aos corpos daqueles judeus e os
teria pendurado num pedaço de pau por terem acabado com o meu Senhor sem que meus
olhos fossem dignos de ver o seu rosto".
E, no mesmo instante em que pronunciou essas palavras, a ferida do rosto de Tito
desapareceu, deixando sua carne e seu rosto novamente curados. E todos os doentes que ali
estavam recuperaram a saúde naquele mesmo momento. E Tito, junto com todos eles,
exclamou aos brados: "Meu rei e meu Deus, já que Tu me curaste sem que jamais O
houvesse visto, manda-me ir navegando sobre as águas até a terra onde nasceste para que
eu Te vingue dos teus inimigos; ajuda-me, Senhor, para que eu possa eliminá-los e vingar a
tua morte; Tu, Senhor, os entregarás em minhas mãos".
E, dizendo isto, mandou que o batizassem, para o que chamaram Natan e ele disse-lhe:
"Como viste serem batizados aqueles que acreditavam em Cristo, vem e batiza-me em
nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, absolve-me, pois creio firmemente em Nosso
Senhor Jesus Cristo com todo o meu coração e com toda a minha alma, porque não há
nenhum outro em nenhuma parte da terra que me tenha criado e que me tenha curado".
E dito esto, enviou legados a Vespasiano par avisá-lo que viesse o mais rapidamente
possível com os indivíduos mais fortes dispostos para a guerra.
Então Vespasiano tomou para si cinco mil homens armados e foi ter com Tito. E, ao
chegar á Líbia, disse-lhe: "A que se deve o fato de me haveres feito vir até aqui"? Ele
respondeu: "Hás de saber que Jesus veio a este mundo e nasceu na Judéia, num lugar
chamado Belém; que os judeus entregaram-no e foi flagelado e crucificado no monte
Calvário, e que, finalmente, manifestou-se aos seus discípulos e eles acreditaram Nele. Nós,
de nossa parte, queremos nos tornar discípulos seus. Agora, então, marcharemos e
eliminaremos os seus inimigos da superfície da terra para que se dêem conta de que não há
quem se assemelho a Nosso Senhor em toda a face da terra".
Assim, então, tomada a resolução, saíram da Líbia e embarcaram rumo a Jerusalém. Aí
chegando, sitiaram o reino dos judeus e começaram a provocar a sua ruína. Quando os reis
dos judeus tomaram conhecimento do que faziam e da devastação da terra, o medo
apoderou-se deles e ficaram consternados. E Arquelao, deixando-se levar pela comoção em
suas palavras, assim falou a seu filho: "Olha, filho, encarrega-te de meu reino e da sua
administração; além disso, ouve o conselho dos demais reis que estão na terra de Judá, de
maneira que possas escapar de nossos inimigos". E, dizendo isso, desembainhou sua espada
e jogou-se sobre ela; depois vergou a espada mais penetrante que possuía, fundiu-a em seu
corpo e morreu.
Então seu filho aliou-se aos outros reis que estavam sob as suas ordens. E, depois de
deliberar entre si, dirigiram-se todos para o centro de Jerusalém, na companhia dos nobres
que haviam assistido ao conselho, e ali permaneceram durante sete anos
Tito e Vespasiano, por seu lado, tomaram a determinação de sitiar a cidade. E assim
fizeram. Passados os sete anos, o problema da fome agravou-se muito e, forçados pela falta
de pão, começaram a comer a terra.
Então todos os soldados pertencentes aos quatro reis reuniram-se e decidiram: "De
qualquer maneira nós vamos morrer. Que nos fará Deus? E de que nos adianta continuar
vivendo, se os romanos vieram para apoderar-se de nossa terra e de nossa nação? Será
melhor que tiremos nossas próprias vidas, para que os romanos não possam dizer que foram
eles que nos mataram e nos derrotaram". E, então, tiraram suas espadas e feriram-se,
morrendo entre eles doze mil homens.
E assim, por causa dos cadáveres daqueles mortos, produziu-se um grande mal cheiro na
cidade. Os reis foram tomados por um pânico mortal e não puderam agüentar o odor deles,
nem dar-lhe sepultura, nem atirá-los fora da cidade. E disseram entre si: "Que havemos de
fazer? Na verdade nós matamos Cristo, mas já fomos, de nossa parte, entregues à morte.
Separemo-nos de nossas cabeças e entreguemos as chaves da cidade aos romanos, pois
Deus já nos atirou nas mãos da morte". E ato seguido subiram nas muralhas da cidade e
puseram-se a gritar, dizendo aos berros: "Tito e Vespasiano, tomais as chaves da cidade que
o Messias, chamado Cristo, acaba de entregar-lhes".
E assim dizendo entregaram-se a Tito e Vespasiano, exclamando: "Julgai-nos, pois
vamos morrer, já que julgamos o Cristo e o entregamos sem nenhuma razão". Então Tito e
Vespasiano os aprisionaram. Depois lapidaram alguns e penduraram outros na cruz, com os
pés para cima e a cabeça para baixo, e feriram-nos a golpes de lança; mas outro puseram à
venda e outros tantos repartiram entre si, em quatro partes, como eles haviam feito com as
vestes do Senhor. E disseram: "Eles venderam Cristo por trinta moedas de prata; vendamos
da mesma forma trinta deles por um só dinheiro". E assim o fizeram. Depois apoderaram-se
de todas as terras da Judéia e de Jerusalém.
Fizeram então uma investigação sobre o retrato da face do Senhor, sobre como poderiam
encontrá-lo. E ouviram dizer que estava em poder de uma mulher chamada Verônica.
Depois detiveram Pilatos e meteram-no na cadeia, onde haveria de ser custodiado por
quatro pelotões de soldados, quatro de cada vez, postados à porta da prisão.
Ato seguido enviaram seus legados a Tibério, imperador de Roma, para que os enviaste
a Velosiano. E o imperador lhe disse: "Leva contigo tudo que seja necessário para que te
faças ao mar e navegues até a Judéia em busca de algum discípulo daquele que se chamava
Cristo e Senhor, de maneira que ele venha até mim e em nome de Deus core-me da lepra e
das doenças que duramente me acometem e de minhas chagas, pois estou muito abatido.
Além disso, contra os reis de Judá, submetidos ao meu império, manda teus açoites e
terríveis instrumentos de tortura, pois mataram Jesus Cristo Nosso Senhor, e condena-os à
morte. E se encontrares um homem capaz de livrar-me desta doença, acreditarei em Cristo,
Filho de Deus, e far-me-ei batizar também em seu nome. "Velosiano disse: "Senhor
imperador, se eu encontrar um homem capaz de ajudar-nos e libertar-nos, que recompensa
devo prometer-lhe?" Tibério disse: "Que sem dúvida alguma terá em suas mãos a metade
do império.
Então Velosiano partiu imediatamente, subiu no barco, levantou âncora e fez-se ao mar.
A viagem marítima durou oito dias, em cujo prazo chegou a Jerusalém. Imediatamente
citou alguns dos judeus para que se apresentassem diante dele e ordenou uma diligente
investigação sobre o que havia sido feito com Jesus Cristo.
Então José de Arimatéia e Nicodemus apresentaram-se simultaneamente. Este último
disse: "Eu tive ocasião de vê-lo e estou seguro de que Ele é o salvador do mundo", José, por
sua vez, disse-lhe: "Eu baixei-O da cruz e coloquei-O num sepulcro novo, escavado na
rocha. Razão pela qual os judeus levaram-me preso sexta-feira à tarde. E no Sabat seguinte,
enquanto estava orando, a casa ficou suspensa pelos seus quatro ângulos e vi Nosso Senhor
Jesus Cristo como um relâmpago e luz, e, consternado, caí por terra. E ouvi uma voz que
me dizia: "Olhai-me, pois eu sou Jesus, aquele cujo corpo tu sepultaste em teu próprio
sepulcro'. Eu lhe disse: "Mostra-me o sepulcro onde eu O coloquei'. Então Jesus tomou-me
pela mão com sua direita e levou-me ao lugar onde eu O havia sepultado."
Veio também uma mulher chamada Verônica e disse-lhe: "Eu, de minha parte, toquei-
lhe a fímbria das vestes no meio da multidão, pois fazia já doze anos que padecia de
hemorragias, e no mesmo instante ele me curou".
Então Velosiano disse a Pilatos: "E tu, ímpio e cruel, por que mataste o Filho de Deus"?
Mas ele respondeu: "Acontece que o seu povo e seus pontífices Anás e Caifás mo
entregaram." E Velosiano respondeu: "Ímpio e desalmado, és digno de uma pena cruel". E
com isto mandou-o de volta à prisão.
Finalmente, Velosiano pôs-se a procurar a pintura da face do Senhor. Disseram-lhe
todos os presentes: "Certa mulher chamada Verônica tem a face do Senhor em sua casa".
Imediatamente ordenou que ela fosse levada diante dele e disse-lhe: "Tu tens em casa a face
do Senhor"? Mas ela disse que não. Então Velosiano ordenou que a torturassem até que ela
mostrasse a face do Senhor. finalmente, sem outro remédio, ela disse: "Eu a tenho, meu
senhor, envolta em um pano limpo e todos os dias rendo-lhe homenagem". Velosiano disse:
"Dize-me onde está". Ela então mostrou-lhe a face do Senhor. Velosiano, no momento em
que a viu, prostrou-se por terra; em seguida tomou-a em suas mãos com o coração aberto e
uma límpida fé e envolveu-a num lenço de ouro e assim mesmo colocou-a num estojo que
selou com seu dedo. Depois formulou um juramento nos seguintes termos: "Vive o Senhor
Deus e pela saúde de César; nenhum homem sobre a superfície da terra a verás mais até que
eu veja o rosto do meu senhor Tibério".
Depois de haver dito estas palavras, os nobres mais proeminentes de Jerusalém pegaram
Pilatos para levá-lo até o porto. Velosiano, por sua vez, pegou a face do Senhor com todos
os seus discípulos e todos os seus tributos e no mesmo dia fizeram-se todos ao mar.
Esta Verônica deixou todos os seus bens por amor a Cristo e seguiu Velosiano. Este
disse-lhe: "Mulher, que queres, que buscas"? Ela respondeu: "Eu busco a face do Nosso
Senhor Jesus Cristo, que me iluminou, não por meus méritos, senão por sua santa piedade.
Devolve-me a face de meu Senhor Jesus Cristo, pois estou morrendo por este piedoso
anseio. E se não me devolveres, não a perderei de vista até ver onde irás pô-la; e saiba que
eu, miserável como ninguém, servi-lo-ei todos os dias da minha vida, pois estou persuadida
de que meu Redentor em pessoa vive para sempre".
Então Velosiano mandou que Verônica fosse levada consigo até a embarcação. E,
levantando âncora, empreendeu a navegação em nome do Senhor e todos fizeram-se ao
mar. Mas Tito e Vespasiano subiram até a Judéia para vingar todas as nações daquela terra.
E, passados os dias, Velosiano chegou a Roma e deixou sua embarcação no rio chamado
Tibre, entrando em seguida na cidade. Imediatamente enviou seu mensageiro a Tibério,
para que ele tomasse conhecimento de sua feliz chegada.
Quando o imperador ouviu o mensageiro de Velosiano, alegrou-se imensamente e
ordenou que visse ter à sua presença. Assim que chegou, falou-lhe: "Velosiano, como foi a
viagem e o que encontraste na terra da Judéia sobre Cristo e seus discípulos? Aponta-me,
rogo-te, aquele que irá curar-me de minha doença, de maneira em que fique limpo desta
lepra que tenho em cima de meu corpo, e no mesmo momento entregarei a ti e a ele todo o
meu império".
E Velosiano disse: "Senhor meu imperador, encontrei na Judéia teus servos Tito e
Vespasiano, tementes a Deus, os quais viram-se limpos de todas as suas chagas e doenças.
Averigüei também que Tito fez pendurar todos os reis e chefes da Judéia: Anás e Caifás
foram lapidados, Arquelao matou-se com sua própria lança, e a Pilatos deixei-o preso em
Damasco, encerrado na prisão, sob segura vigilância. Apesar de tudo, fiz investigações
sobre Jesus, a quem os judeus barbaramente atacaram, armados de espadas e paus e depois
crucificaram; Ele havia vindo para libertar-nos e iluminar-nos, e eles O penduraram numa
cruz. E José de Arimatéia e Nicodemus levaram uma mistura de mirra e aloé, numa
quantidade de umas cem libras, para ungir o corpo de Cristo; eles O baixaram da cruz e o
colocaram num sepulcro novo. Mas ao terceiro dia com toda a certeza ressuscitou de entre
os mortos e deixou-se ver por seus discípulos com o mesmo corpo com o qual havia
nascido. Finalmente, ao final de quarenta dias, viram-no subir aos céus. Além disso, Jesus
fez muitos outros milagres antes e depois da sua paixão. O primeiro foi transformar a água
em vinho; depois ressuscitou os mortos, limpou os leprosos, deu visão aos cegos, curou os
entrevados, exorcizou os demônios, deu audição aos surdos e fala aos mudos; a Lázaro,
morto já havia quatro dias, ressuscitou-o do sepulcro; Verônica, que vinha sofrendo de
hemorragias durante doze anos, curou-se somente ao tocar-lhe as vestes.
"Então agradou ao Senhor nos céus que aquele Filho de Deus, enviado a este mundo
como o primogênito a ser morto na terra, enviasse um anjo seu, e enviou Tito e Vespasiano,
aos quais conheci nesse mesmo lugar onde está o teu trono. E agradou ao Senhor onipotente
que partissem para a Judéia e Jerusalém e que prendessem os teus súditos e os submetessem
a um julgamento parecido com aquele ao qual submeteram Jesus quando O prenderam e O
amarraram.
"E depois Vespasiano disse: "Que havemos de fazer com os remanescentes'? Tito
respondeu: "Eles dependuraram Nosso Senhor em um madeiro verde e O feriram com uma
lança; penduremo-los da mesma forma, nós a eles, numa madeira seca e perfuremos seus
corpos com uma lança'. E assim fizeram. Então Vespasiano disse: "E que haveremos de
fazer dos remanescentes'? Tito respondeu: "Eles pegaram a túnica de Nosso Senhor Jesus
Cristo e dela fizeram quatro partes; peguemos, nós também, a eles e dividimo-los em quatro
partes: uma para ti, outra para mim, outra para teus homens e uma última para meus servos'.
E assim fizeram. E Vespasiano disse: "Dos remanescentes, que vamos haveremos de fazer'?
Tito respondeu: "Aqueles judeus venderam Nosso Senhor por trinta moedas de prata:
vendamos, então, nós a trinta deles por uma só moeda'. Depois prenderam Pilatos e o
entregaram a mim; meti-o numa prisão em Damasco para que fosse custodiado por quatro
pelotões de soldados, quatro de cada vez.
"Depois fizeram diligentes pesquisas para encontrar a face do Senhor, e encontraram
uma mulher, chamada Verônica, que possuía a mencionada efígie."
Então o imperador Tibério disse a Velosiano: "Como a conservas"? Este respondeu:
"Tenho-a envolta numa capa colocada num pano de ouro". Tibério disse: "Traze-a e
descobre diante dos meus olhos para que eu a adore sobre o chão, caindo por terra de
joelhos". Então Velosiano estendeu seu manto e o pano de ouro onde estava o lenço
gravado com a face do Senhor, e o imperador Tibério pôde vê-la. Este, no instante seguinte,
adorou a efígie do Senhor com o coração puro, e sua carne ficou limpa tal qual a de uma
criança. E todos os cegos, leprosos, coxos, mudos, surdos, e aleijados de várias doenças,
que estavam ali presentes, foram recuperando a saúde e ficaram sadios e limpos.
Porém o imperador Tibério, ajoelhado e com a cabeça baixa, considerando aquela frase:
"Bem-aventurado o ventre que Te gerou, os peitos que Te amamentaram", gemeu e disse ao
Senhor entre lágrimas: "Deus do céu e da terra, não permitas que eu peque, mas sim
confirma minha alma e meu corpo e coloca-os em teu reino, pois confio sempre no teu
nome: livra-me de todos os males assim como livraste os três meninos do forno de fogo
ardente".
Depois o imperador Tibério disse a Velosiano: "Velosiano, viste algum daqueles
homens que poderiam ter contemplado Cristo"? Velosiano respondeu: "Sim, eu O vi". O
imperador acrescentou: "E perguntaste como batizavam aos que acreditavam em Cristo"?
Então Velosiano disse: "Aqui, meu senhor, temos um dos discípulos do próprio Cristo".
Assim, então, mandou que chamassem Natan para que viesse à sua presença. E Natan veio
e batizou-o em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, amém. Depois o imperador
Tibério restabelecido já de todas as doenças, subiu ao seu trono e disse: "És Bendito,
Senhor onipotente e louvável, que me livraste do laço da morte e me limpaste de todas as
minhas iniqüidades, pois cometi, ó Senhor, muitos pecados na tua presença e não sou
digno de contemplar o teu rosto". Então o imperador Tibério foi completamente instruído
sobre todos os artigos da fé.
Que o mesmo Deus Onipotente, que é rei dos reis e senhor dos que dominam, proteja-
nos em sua fé, defenda-nos, livre-nos de todo o mal e perigo e, finalmente, digne-se levar-
nos até a vida eterna uma vez terminada a vida temporal. E que seja bendito por todos os séculos dos séculos. Amém.
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